28.12.09

A Gilete

Vento solar e estrelas do mar
A terra azul da cor de seu vestido
Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?

Lô Borges – Um girassol da cor do seu cabelo


O dia era digno de se convocar um plebiscito para transferir Juiz de Fora de Minas Gerais para o Rio de Janeiro: abafado, úmido e carente de maresia. Anderson, em homenagem, zanzou o tempo todo pela casa de bermudinha e havaiana. Admirou a varanda de zero cinqüenta por um e meio com orgulho, antecipou a presença do apart-grill do catorze zero meia e suspirou mais fundo, admirando os próprios peitorais. O piso de pedras, bege com detalhes floridos na paleta de marrom, promoção da Casa do Pedrão em dez vezes sem juros, entoava um agradável eco de chinelos e reverberava as guitarras das melhores bandas da região. Tudo meu brother! A vista tinha um ar meio carioca, ladeiras de paralelepípedos entremeadas de mato, meninas pra lá e pra cá. Pela esquerda, um pedaço da avenida suficiente para enxergar o luminoso do delivery de torresmo e o açaí da praça onde ele terminara o curso de pós graduação em marketing e finanças. A sala era decorada com quadros que herdou dos tios: um pôster envidraçado do Rocky I (o único que prestava), o quadro maciço do chimpanzé vestido de astronauta e o famoso desenho das caricaturas da MPB, tudo em gentil harmonia com a TV CCE e o gato da Net aberto para todos os campeonatos do PFC. Na cozinha recusou o pingüim da vó, ficou em dúvida com os panos de prato bordados e com rendinha, aceitou o velho microondas e a geladeira de puxador retrátil. Era velha, amarelada, propensa a fungos, mas gelava cerveja no ponto e matava as saudades do velho Nésio. Seu quarto estava arrumadinho, a cama de viúva casara certinho com o jogo de lençóis dos Herculóides. O criado mudo tinha um vão especial para a coleção de quadrinhos do Groo, o errante. Mas o xodó dele era mesmo o banheiro. Limpinho, desinfetado com cuidado pela Dona Fátima, cheirando a lavanda roxa, dava pra imaginar as valquírias do comercial trazendo seu acervo da Gatinhas Brazil numa bandeja prateada para o momento íntimo da cagada vespertina. Na bancada ao espelho, arrumou a coleção de perfumes e deu destaque especial ao pólo preto. Dentro do Box, jaziam impávidas no suporte plástico as últimas aquisições, até então inéditas: xampu e condicionador para cabelos secos e um reluzente barbeador de cinco lâminas, virgem, ainda no lacre, ansiando um momento todo especial.

Às três e meia o Daniel ligou para dar uma enquadrada. Que história é essa de jantarzinho íntimo pros amigos? Falou com ele meio de lado no celular, soava muito alto e já tinha tomado umas. Vem logo e não cria caso. Lembrou do Flavinho, que era mais tolerante. Você está curtindo? O importante é você estar curtindo. Aquele jeito mineiro do brejo de falar a frase calma, o biquinho, a cabeça virando de lado, ponderando. Deu mais confiança. Quis ir em frente. O Flavinho era foda, companheiro. Estava quase na hora da mina chegar, precisava demonstrar confiança. Decisão era uma coisa importante, tinha um passo a dar, para frente. Um desafio. Uma vida mais madura, de pós-graduado, de quem tinha apartamento próprio, mesmo financiado. Depois se lembrou do Daniel de novo, das baladas, das farras no sítio, das viagens pro Rio, começou a se arrepender, viu a variabilidade que os Herculóides poderiam comportar, a mistura de aromas dantescos que tomariam conta daquele quarto canalha depois de um fim de semana bem levado.

O pensamento não vingou. Tocou a campainha. Tocou pela primeira vez a sua campainha. Sou eu quem paga a conta de luz dessa campainha. Era a mina, chegando antes da hora. Oi, lindo, não agüentei esperar até anoitecer, sabe a Teca, prima do Betão?, então, ela estava passando aqui na praça pra comprar aquela bolsa que eu te falei que era ridícula e caríssima e que era imitação da que a minha irmã viu em Nova Iorque, então, ela foi lá e comprou, óbvio, ela se acha, coitada. Anderson ouviu ouvindo, focado no farol quase aceso do vestidinho azul da sua candidata a namorada oficial. O toque-toque do neo-tamanco o fez abaixar o som. Começou a tocar Beautiful Day do U2 e ele mudou de idéia, aumentou de novo. Resolveu apelar pra estrear logo aquela coisa toda. Estava com saudades, gatinha, vem cá me dar um beijinho na varanda, vem? Ela foi. Ela, vez em quando, ensaiava comentar alguma coisa, voltar pra bolsa ou pras amigas, alheia ao espírito. Ele apelava às mordidinhas no pescoço e aos impropérios ao ouvido. Me conta essa história lá no quarto, safada! Ai, Anderson, vem que eu te conto. Vem, vem, me conta tudo do preço dessa bolsa! Mais uma vitória dos Herculóides, esse heróis da infância, sempre presentes.

Apesar de toda a incandescência, Anderson foi tomado por um sentimentalismo pós-coito. Imbuiu-se daquelas horas em que todas as putarias da vida parecem vazias. Colocou um CD que ele escondia dos amigos, um dos copiados do acervo do pai: Rod Stewart ao vivo e Unplugged. Dançou “Have I told you lately that I Love you” com a mina, do começo ao fim, no meio da sala marrom, agarradinho, ele de cueca, ela de calcinha e camiseta. Pensou em casamento, numa filinha, numa casa maior em Belo Horizonte. Ou no Rio. A vida diferente, um pai de terno indo ao trabalho, uma figura respeitável nas ladeiras, cumprimentando as meninas com simples afagos nos cabelos, apenas gestos. Uma referência, um diferente na família. Ao voltar estava jogado no sofá vendo imagens correntes do gato e a mina dava o veredicto: não tem nada aqui, ainda bem que eu trouxe as coisas no carro! Toalha de mesa, talheres e aqui do lado tem os ingredientes que eu preciso. Vou lá e já volto. Toalha de mesa.

A noite chegou rápido. Iniciou-se um ritual de recepção: Flavinho, Daniel, ele e a mina. A gente está tão feliz de receber vocês aqui... Flavinho, mais simpático, fazia companhia pra mina enquanto ela terminava de mexer o estrogonofe e secava as mãos no avental. Sabia que é o prato preferido dele? Daniel aproveitou a brecha e chamou o Anderson pra pôr os pés no chão, ele tinha enlouquecido, tinha ficado com a mina há duas semanas, mal conhecia e ela estava lá com “a gente está feliz”. Que mané “a gente está feliz”? Anderson sorriu tranqüilo, deixa rolar, meu brother, fica tranqüilo, pega mais uma cerveja. O amigo sentou de novo, ficou tomando mais uma sem conseguir se concentrar na pancadaria da TV. Estava aflito com a combinação do chimpanzé sorridente e da toalha de mesa verde-água com detalhes geométricos laranja e amarelo. Mas a mina era rápida e captou os sinais. Tratou dele com mais atenção do que a dispensada ao namorado. Serviu com cuidado o arroz, arrumadinho, depois ajeitou o montinho de batata palha e encaixou o estrogonofe no vão, na medida certa. Deixava a cervejas sempre geladas, tomava cuidado pra não interromper os papos de homem. Perguntou se o Daniel ainda esta namorando. Ainda? A mina sorriu dengosa, você não tem jeito mesmo, né? Desfechou com um golpe de mestre, pavê de chocolate, receita secreta da vó da mina.

Ânimos descansados, o ambiente respirou. Flavinho fumava um Carlton na varanda e divertia os amigos contando as histórias da ex-namorada que ameaçou processá-lo por danos morais. Daniel, mais relaxado, deu seqüência com a descrição detalhada da estratégia que usaria pra catar a filha do dono da academia. Essa sim era mulher pra casar. Tec Tec Tec. Discutiram por uns dois minutos se mantinham a Net no PFC ou mudavam pro canal de domador de cobras do Discovery. Tec Tec Tec. Ficaram mesmo com o domador, abaixaram o som pra discutir melhor se ficariam por lá mesmo ou se iam pra balada. Daniel queria ir ao Cultural Bar e o Flavinho não queria mexer com isso não. Tec Tec Tec Tec Tec. Anderson foi pegar mais cerveja e o Daniel parou pra prestar atenção:

- Que caralho de barulho é esse?
- Sei lá...
- Cadê a mina?
- Não sei, ué, estava aqui, foi pra cozinha e depois não vi.

A mina estava tomando banho.

- Anderson... Ela não tinha tomado banho antes do jantar?
- Tinha.
- E o que é esse Tec Tec Tec?

Após uma esquisita meia-hora, ela de preto, batom e bolsa despediu-se rapidamente de todos explicando que ia correr pra marcar presença no jantar de aniversário do padrasto, senão a mãe vai ficar no pé mais de uma semana. Enquanto os amigos já não tinham mais saco pra buscar interpretações, Anderson só pensava no seu altar, seu xodó azulejado. Lá, um pote vazio de creme desdenhava o poder do Pólo. A revista primeira da pilha estava cheia de respingos, bem na capa da Susi Barraqueira. O cheiro de lavanda roxa esvaíra-se. Havia agora uma enjoativa mistura de xampu de babosa com uma colônia adocicada de dezesseis e noventa. E a gilete, maculada, agonizava no chão do Box, misturada aos cabelos compridos acumulados no ralo.

Fim de tarde seguinte, tocou o celular, era o Daniel. Só se fala de uma coisa aqui no bar: parece que o Betão está rico. Ganhou na raspadinha premiada. Anderson desligou, viu um pouco de TV, fez um sanduíche, abriu uma cerveja. Depois de um tempo dobrou cuidadosamente a toalha de mesa verde água. Ao lado colocou os restos de estrogonofe, arroz e batata palha em três recipientes plásticos separados e vedados. Foi à varanda, curtiu o pôr-do-sol, trocou olhares com as meninas da ladeira. Tudo inútil. Uma coisa não saía da sua cabeça. Sacanagem... Zoou a minha gilete.

8.12.09

O relojoeiro

" ’If you knew Time as well as I do,’ said the Hatter,‘you wouldn’t talk about wasting it. It’s him.’
’I don’t know what you mean,’ said Alice.
’Of course you don’t!’ the Hatter said, tossing his head contemptuously. ‘I dare say you never even spoke to Time!’
’Perhaps not,’ Alice cautiously replied: ‘but I know I have to beat time when I learn music.’
’Ah! that accounts for it,’ said the Hatter. ‘He won’t stand beating. Now, if you only kept on good terms with him, he’d do almost anything you liked with the clock."

Lewis Carroll - Alice's adventures in Wonderland



11:37, hora em branco matinal, lembrança do Natal que se aproxima, ressaca imaginária do tender e das passas no arroz. A graça do dia 25, para ele, era inexistir. Era uma herança. O tempo do pai era um relógio sem paradas artificiais e regalos, provocação infantil de adulto para criança obrigada a crescer, ver a realidade econômica do país e da vida e da sua bicicleta, do seu atari. Aquele tempo era um Maílson da Nóbrega anão. Agora hoje, 12:43, uma coisa apenas o faria desejar festas: uma boneca russa infinita, vermelha e dourada, cheia de afrescos, uma capaz de olhá-lo e dizer: você pode me abrir hoje até seu aniversário, o dia da criança, o dia do solitário, a festa de fim de ano do ano que vem, nenhum ponteiro há de interromper nosso ciclo, nossa conversa e intimidade. Seu presente aos outros seria um ritual de magia negra espalhando bruxinhas idênticas pelos cantos da sala e do jardim, assim estragariam também as páscoas do porvir.

14:02, viu no espelho sua cicatriz na testa, companheira quase tão velha quanto seus primeiros minutos. No dia da bicicleta, o velho não disse nada, balbuciou alguma desculpa qualquer, meteu-o no carro, lanterna quebrada, fedendo a jornal. Um bairro chegara e ele não sabia onde era. Agora, 14:14, ele nunca mais saberá. Como sempre, nada fazia sentido, por que tão longe? Por que arrumar um lugar esquisito? Qualquer um arruma carro e hoje em dia... No fim esqueceu. Carrilhão sem paradas, sem razões, gira e gira e gira e demora. Demora pra perceber o mundo, pra se importar com os outros. Discutiram coisa de carros o pai e o tiozão sujo de graxa. Este arrumou, no que devia ser 15:37 daquele dia, uma improvável bicicleta cross do fundo da oficina, semi-nova mas honesta. Veio junto na conta, um presente de causas naturais. 16:09 do dia seguinte, uma cicatriz de causas igualmente.

Hoje mais tarde, talvez 16:28, ele, logo ele, unanimidade da família, fantasiou a cicatriz resolvendo abrir no meio da hora de servir o tender, jorrando pus irônico da mesma cor do molho de ervas. Estava chocando um cuco drogado. Queria quebrar a casca e mostrar a impontualidade do velho, a falta de importância que o filho jamais conseguiu fazer o mundo merecer. 17:04, odiava as festas por caírem no verão, suava uma gota segundo. Decidiu apelar ao amuleto, a última alquimia de pulso paralisada desde o dia do velório. Uma peça de valor médio-baixo de mercado, uma pulseira de couro escuro, brilhante, cheia de um gasto justo, um envoltório metálico meio prateado pelo gasto do dourado. 17:27, ele subia a velha ladeira do bairro, toda decorada de condomínios orgulhosos de mini lâmpadas chinesas, e ele as adorava: itens primordiais do déficit comercial e espiritual brasileiro. Lá em cima, a rua do colégio, entre uma lan-house e uma franquia de perfumes, sobrevivia um relojoeiro.

17:39, ele observou os relógios de cozinha, à esquerda. O homem previsível o atendeu sem sorrir, meio calvo, meio branco da vida. Vamos verificar se a bateria funciona. Se estivesse ali, o pai diria a frase de sempre, e ele se impacientaria e diria eu sei que você se mataria em uma semana nesse ofício, é tão nobre ser as coisas que nós somos, e lembrou que o papo de ser aquilo o enchia do mesmo vazio de agora, 17:43. Funcionou? Funcionou. Mas a satisfação de ver a engrenagem girando pedia mais. O senhor poderia restaurar as falhas no metal? Sim, mas não vale a pena investir. Ele não vai durar muito. Cogitou insistir. Mas não, preferiu continuar desnatado, um Pascoal sem ilha, um pai de dia dos pais sem filhos, uma mãe sem Casas Bahia. O relógio fica e um dia vai parar. De causas naturais.


26.11.09

Sonho de uma noite de verão

O ventilador batia forte, as energias da cama iam e voltavam, frio demais sem os lençóis, calor esquisito com. Já sonhara as coisas que odiava, circo, mendigo, surra do colega da sexta série, coisas desconexas e sem luxúria, muçulmanos e ligas metálicas, tudo menos um prazerzinho. O sono não fluía bem e, depois de uma passeada qualquer por um prédio abandonado com santas barrocas, sentou num tronco lilás e ouviu o cutucar chato de uma coisa familiar. Anota aí! Anota logo, vai! Agora! Anota o quê? O número, vai: quatro, sete, meia,... O cidadão, quase bispo, sugeriu que cantassem uma trovinha com os números. Quatro lá, sete sol, meia ré e coisa e tal. O que sucedeu, uma pedra até onze da manhã e o acordar penitente daquela hora, não é nada, mas nada é alguma coisa depois de uma coisa dessas. Pastores ainda pregavam na televisão ligada, o café acabara, o dia nublou, a cueca rasgava e o número, longe da santidade da memória, ficou rabiscado numa conta a pagar prestes a cair da escrivaninha.

Número começado com quatro, sete, meia aterrorizava a classe média, um apelo a Virgem Maria, é coisa de periferia ou de presídio. Um código secreto capaz de fazer sua mãe reverenciar o bina e esquecer São Jorge. Uma sequência cabalística porém insuficiente para tirar um tédio tardio do seu curso natural. Até que revistas descritivas da realidade terrestre, copos com meio suco e cinzeiros pedindo socorro saíssem do caminho, dois dias foram. Para sair do mesmo, brincou de fazer trote da infância apartamentícia, quantas pizzas não devolveu o pobre Seu Soares do terceiro andar. Se mera enganação ou fio de esperança convicto na existência paralela, só uma vidente saberia. Superou a preguiça do telefone sem fio da sala e discou vagaroso: quatro, sete, meia... Alô? É... alô. Pois não? Me perdoe a indelicadeza, não costumo fazer isso, você poderia me dizer de onde falam? Olha, parece que aqui é do sonho do seu Marcelo. Pausa cruel. Lá era do sonho dele. E quem está falando? Aqui é o gato maltês.

O importante do felino era o timbre de Voz do Brasil, intimidador e dono da verdade, nem parecia viver num estado laico. Saberia me informar se o senhor Marcelo se encontra? Olha, pra ser sincero eu estou um pouco perdido com essa coisa de encontrar comida no ambiente etéreo, isso é novo pra mim, apesar de maltês. Afinal, peixe é peixe e cio é sonho divino em qualquer lugar. O senhor é simpático, vou tentar o Flash dois. Lá Sol Ré Sol Lá Mi Mi... Lá Sol Ré... As unhas marselhesas já se corroíam. De castigo e de tesão. Alô? Boa tarde, eu gostaria de falar com o senhor Marcelo. Ele no momento se encontra ocupado com as virgens de Alá, senhor. Você poderia informar que é o Marcelo, ele mesmo, quem gostaria de falar? Neste caso estarei verificando, senhor. Lá Sol Ré Sol Lá Mi Mi... Lá...rápio Sol...stício Ré...mido lá lá...

Não acredito! Esse é o meu garoto! Esse é o cara! Mamá, garotas! Mamá na linha! A ligação era perfeita, o burburinho dava pra sentir na pele. A origem do universo seria o cumprimento que se faz a si mesmo. Tudo bem por aí? Aqui está tudo na maior santidade, estou vestido de rabino, trancinha e tudo, sunguinha Calvin Klein, funk carioca bombando, arquitetuta gótica, sol ensolarado, mas eu quero pausar tudo! Pausa tudo! Quero ouvir você, Mamá! Me fala de você, Mamá!

Alheio ao fuzuê, quis apenas a pergunta fundamental.

- Eu só queria te perguntar por que sempre que eu começo a transar no sonho o sonho termina.

- Sempre mesmo?

- Sempre. O máximo que eu consegui foram as primeiras bombadinhas.

- Puxa vida... Mas sempre foi assim?

- Sempre. Desde o tempo da Xuxa.

- Caramba... Pô, a Xuxa... É importante.

- É, mas eu só sonhava com ela no tempo da Manchete.

- Sério? Na Globo não?

- Não... Aquele cara vestido de joaninha, o disco voador e aquele anão meio que me tiravam o tesão.

- Mas nem as paquitas compensavam?

- Pois é, não... Eu tinha uma encanação que era muita loira e eu não ia dar conta.

- Nossa. Isso é trauma profundo. Infantil.

- É...

- Nosso Pai deve ter explicado alguma coisa profunda nessa época.

- Será?

- Acho que sim. Ele te explicou, nos detalhes, o que era polução noturna?

- Hum... Explicou.

- Ah, então...

- É....

- ...

- Bom. Está tudo bem com você aí, né?

- Ah, por aqui está beleza.

- Então é isso aí. Nos falamos, certo?

- Nos falamos.

- Abraço.

- Abraço.

6.11.09

O descobridor de Potosí

Havia entre os ibéricos, desde medievais eras, verdadeira adoração pelos brasões. Assim o demonstra o orgulho sóbrio com que a família espanhola Garcez Vásquez exibiu sua cor em bandeiras no porto de Lisboa em 12 de novembro de 1518. Partia naquele dia um de seus mais ilustres fidalgos, D. Diego Garcez Vásquez, capitão da expedição exploratória a serviço do monarca português D. João III, o Piedoso. Ao caminhar em direção a nau Santa Madalena, o manto de D. Diego adquiriu espantoso brilho, fundindo-se à cor preponderante de seu brasão em algo sólido e único. Levantadas as velas, sua embarcação e as demais da frota fundiram-se ao mar e céu, o próprio sol escureceu antes da noite e o capitão desapareceu na uniformidade, muito antes de atingir o horizonte. Nesta toada conduziram-se, como num vôo, até as águas cristalinas dos rios do sul da América.

Atracaram na baía de Santa Catarina, inteira tomada por matas e gramíneas. Mal se podia ver a areia. A expedição, além de seus homens, contava com índios carijós trajados em folhas, fibras e cordas de cipó. Livre de seu manto incompatível aos ares tropicais, D. Diego conduzia o grupo com desenvoltura impressionante, como se prescindisse de qualquer orientação dos nativos. Os homens atribuíam sua estranha nova coloração às febres tropicais. Em muitos momentos, embrenhados na mata, viam o capitão desaparecer. Mais adiante, a curta distância, distinguiam-no finalmente em meio às rãs, jacarés, cobras e folhagens. O brasão, sempre carregado tal um cajado pelo explorador, também se transformava, misturado naturalmente ao ambiente fechado e hostil.

Após dois meses chegaram ao deserto. Mais da metade dos europeus perecera. D. Diego e seus homens cobriram-se de tinturas à base de pau-brasil confeccionadas pelos carijós. A proteção era necessária para resistir à exposição constante ao sol e a ausência de sombras. Sobreviveram graças à caça de animais rasteiros, assando suas carnes expostas e afiando os dentes como selvagens. A pouca madeira que encontravam pelo caminho era cuidadosamente guardada para que suportassem a temperatura da noite em volta do fogo. Após uma sangrenta batalha com índios rivais dos carijós, o corpo de D. Diego e seu brasão eram, novamente, uma só pele, esgarçada pela selvageria, indistinguível da cor dos nativos e da areia sem fim.

Tanta agrura e morte não foram em vão. O explorador fez de sua missão uma resposta às súplicas dos monarcas ibéricos. Descansou pela primeira vez seu semblante ao avistar a montanha prateada de Potosí. Foi tal seu deslumbramento que não notou a beleza da vila indígena, toda coberta de gelo e neve, as construções de pedra, os lobos e coelhos domesticados descansando à porta das casas. Conforme se aproximava da montanha, D. Diego empalidecia e seus olhos claros descoloriam. Caminhou afundando na neve até desaparecer aos olhos dos dois carijós que ainda o acompanhavam. Deitou finalmente sobre o mar de prata e não pode mais se mexer. Expôs seus dentes todos, num sorriso febril. Permitiu que sua pele absorvesse toda a força fria da montanha. Aos poucos seu corpo, e o brasão dos Garcez Vásquez, transformaram-se numa mistura sólida de gelo e carvão.

Nesta forma D. Diego retornou ao velho continente em 1556, levado por navegadores desconhecidos. A corte do rei espanhol Felipe II o recebeu a princípio com estranhamento. Contudo, logo deram início às homenagens e honrarias. Repousou, enfim, num suntuoso jazigo, descolorido, no cemitério de Madrid.

28.10.09

Antropologia de caminhão

Cuiabá estava em polvorosa. Repórteres de todos os respeitáveis meios de comunicação apinhavam-se à porta do pequeno sobrado verde, geminado a um azul e a um descascado. Dona Alzira saiu enfim, abraçada às tradicionais papagaias de pirata da família. Emocionada, balbuciou agradecimentos a Nossa Senhora, Santo Antônio, Jesus Cristo, Deus e à Polícia Federal. Há dois meses desaparecido, seu esposo, Alcides da Silva, caminhoneiro profissional há mais de trinta anos, fora encontrado como efeito colateral da Operação Pajé Ubirajara, estratégia secreta de nossa força nacional em busca de traficantes de ouro e aliciadores de menores no sul do Mato Grosso. O velho Alcides, em aparente overdose de ayahuasca, chamou a atenção dos policiais à paisana ao desfilar, seminu, em tangas de crochê e ornamentos penosos, pela praça central de Campo Novo de Parecis, gritando a pleno pulmões que era a encarnação de Peró Naruê Xantim. A despeito disso, os munícipes já o conheciam pela alcunha de “Cidão Caramuru”.

Acreditando-se em bocas de Matilde parecisenses, parece que a história se passou como segue. Alcides já deixara Cuiabá bastante aborrecido com seu supervisor, um trainee esnobe que se divertia enviando a velha guarda da firma aos destinos menos nobres. Sua incumbência era buscar a soja produzida em Sapezal, nos quilômetros finais da rodovia MT-235, mais conhecida entre ele e seus companheiros como a porra da rodovia do índio. Já antecipando o quão difícil seria escapar dos atoleiros, o experiente caminhoneiro encheu sua cabine de mandingas anti-pluviais. Ainda assim rodou e rodou entoando rezas com a figurinha de Nossa Senhora dobradinha e presa ao anel do dedo mindinho. Ao se aproximar da terrível travessia florestal, surpreendeu-se com um monumental tapete asfáltico, ainda perfumado de nova tinta amarela. Como se a santa lhe dissesse que não era sonho, avistou a placa: “Pedágio dos índios – 3 KM”.

Ainda entorpecido, Alcides não resistiu a uma piadinha na cabine número três, boa tarde, aceita miçanga? A bonita nativa pareci não entendeu, não sorriu, falou são dez reais senhor e estendeu-lhe um recibo e um folheto: “VISITE A PARADA AMIGA PARECI”. Alheio aos riscos de adentrar o caminhão naquela excêntrica vicinal, Alcides rodou, passou pelo Capivara Grill, barraquinhas de artesanato, pelo Alligator’s Burguers, pelas casinhas de protótipos de pajé ofertando ervas e curas, mas foi parar mesmo no Iracema’s – Honey Lips Virgins, graças ao neon vermelho e azul recém-inaugurado. Ali conheceu Suzana, linda mestiça de índios com missionários neozelandeses, apaixonou-se, prometeu tirá-la da vida, ignorou Dona Alzira que a estas horas já dormia tranqüila lá em Cuiabá. E logo no estacionamento do motel Xanxerê Xanchadas lhe depenaram todo o caminhão, não perdoaram nem a foto de Dona Alzira, ainda jovem, colada ao cd riscado do rei Roberto que ele pendurava no retrovisor.

Em meio à confusão, foi apresentado a um tipo meio esquisito com shorts adidas que se dizia cunhado de Suzana. Ponderou-lhe que a delegacia mais próxima ficava só em Sapezal e sugeriu que tomassem uma cachacinha pra esfriar a cabeça. Este meliante encontra-se neste momento detido por suspeita de envolvimento no ilícito, mas o que importa é que Alcides tomou sete doses de ayahuasca convencido de que era pinga com ervas da região. O paradeiro e as desventuras de Alcides nos dois meses que passou na selva, lamentavelmente, são difíceis de reconstituir, considerando as restrições imposta pelo Ibama e pela Funai para a devida proteção dos códigos culturais parecis. Alcides se encontra agora discursando em rede nacional de televisão, ao vivo de Cuiabá, carinhosamente abraçado com Dona Alzira e seus filhos. Parece solene e elogia as iniciativas do atual governo com vistas ao progresso do país.

24.10.09

Ponto de interrogação

E aqui estou, levando este nobre currículo pra entrevista. Ele não acreditou, aposto, quando falei que já trabalhei onde trabalhei. O cara é até gente fina, mas pensa que taxista é periferia. A periferia é que está em nós, maluco. Deixa passar dois anos, ele vai ver onde leva esse currículo. Cansei de fazer ponto com playboy frustrado do Jardins. Neguinho foi lá, passou na faculdade, meia-boca, papai fez churrasco, passou quatro anos puxando fumo, enchendo a cara, teco-teco na farinha e tchaca tchaca na butchaca, chamando loirinha de Galisteu. Só que tem o seguinte: acabou a faculdade, vai disputar vaga com o japonês. E quando o japonês abduz a planilha, faz as paradas, seu chefe não vai nem lembrar o seu crachá. E aí você vai ver que esse taxi está estacionado mais perto da sua casa do que você imagina.

- Mas diz aí, dá pra tirar um cascalho razoável nesse ponto, ou nem?

Olha lá, falei. Não é por acaso que os meus grisalhos são o terror da Cidade Ademar. Eu tenho nas veias o conhecimento. O fluxo das idéias, sapiência de quem dá a idéia. A molecada me chama de mestre dos magos. Se fosse no Rio, todos os camaradinhas me respeitam. Não dou cinco minutos pra gravatinha sacar um assunto de futebol. Neguinho pensa que taxista só sabe falar de futebol. Só falta ser corintiano. Se bem que não. Puta que pariu, pá-pum, é corintiano. Loirinho assim, quando é corintiano, acha que a periferia toda só tem gambá.

- Pô, diz aí, não dou seis meses pra levarem o Dentinho pro Barcelona.

Não vou nem lançar que o meu pai era faxineiro do Cícero Pompeu e lá em casa é todo mundo tricolor. Mesmo porque não é verdade. Mas vou até mudar de assunto, se ele começar com pagação de Ronaldo eu vou meter bandeira dois. Quero ver ele falar de trabalho, vamos ver se eu não conheço esses sistemas aí que você usa, SAP, Microsiga. É, está impressionado, não falei? Gostando das bolinhas aí atrás do banco? Vai se acostumando. A não ser que você seja menos cabaço do que eu e não vá engravidar uma vadia. Se bem que, sinceramente, você tem jeito de quem não pega ninguém há uns oito meses.

- Já veio nessa balada aqui? Pô, cara, têm várias minas.

Vamos lá, vamos lá, estamos chegando, Vila Olímpia, a Wall Street da classe média paulistana. Só que sem a Melanie Griffith. Cheio de maninho do Morumbi vindo aqui trabalhar doze horas por dia pra ganhar dois conto por mês. A periferia aqui ganha mais, filho, vai vendo. Quatro meia oito, é aqui. Vai mano, vai. Boa sorte. E o pior é que é boa sorte mesmo, senão é mais um pra me urubuzar o ponto.

15.10.09

Folheando

A Argentina na Copa está, nossa torcida a pesar. Posso que esta foi a primeira notícia do dia dizer. Meu cérebro de manhã, meu cérebro precisa, ele precisa de um café forte pra pegar no tranco. Não tem jeito, se não for do meu saber no pó, no vidro e na pazinha, a quantidade exata. E na minha máquina. Ah, boa notícia, o governo a desasucrinar, vai restituir o imposto, o meu, o seu, o nosso suor e a renda, tudo junto, eu pelo menos espero. Enquanto não acordo aquele despertar do colega que, sempre chegando mais cedo e mais disposto, alegrista e conferencista, você odeia, meu conselho sugestivo é falar comigo só daqui a meia hora. Depois do jornal. Junto com a tinta que emporcalha os dedos, atrapalhando o biscoitismo, as mesmices, o lucro recorde dos bancos animando o mercado, me incomoda. O prefeito, por seu turno, cumpre sua antipalavra de campanha, parcela (sem juros!) o aumento do imposto predial, territorial, urbano e decreta: no que se refere ao primeiro caderno, nada mais a declarar.

Do torneio eliminatório dos cadernos, veículos empatou com imóveis, assegurando a vaga do esportes. Maradona esbraveja, Dunga resmunga, minha mulher caga e anda, eu bocejo de novo, pego mais café. O cronista, imbuído do poder eu já sabia, rebate os respostismos a raquetadas, sempre paragrafando em pouco brilho. Honduras, em estado de sítio, dá motivo de gritismo aos gansos, ovelhas, bovinos e pulgões, está na Copa. As notinhas canto de página do ciclismo, do tênis e da ginástica, apêndices do anúncio página toda, a promoção (sem juros!) de toda sorte de cromossomidade celular, alertam: há um possível campeão mundial, mas parece que ele não gosta de sair na foto.

Minha mulher saiu pra fazer isso que está reportado na matéria de capa do empregos, que eu passo, por estar desconexo da minha realidade agoral e, mais por uma obrigação, vou ao dinheiro. “Arrecadação do imposto sindical dispara”. Chorei. “Uma linha de crédito a mais, uma preocupação a menos”, claro que sim, diga isso pra minha digníssima, a vossa advogadeza que acaba de sair. O que, o imposto foi criado nos anos 40 por Vargas? Aí sim, adoro o bom velhinho, eu gostaria de ter vivido na época dele, ou talvez o que eu goste mesmo não vai mais ser publicado, as histórias, do meu avô, o gauchão. A bolsa sobe 2,4%, com o dólar a 1,70, eu poderia ir a Nova Iorque se o resgate não tivesse, se a minha vale já não fosse tão ordinária. Mas pra mim o que mais vale é o panda, esse bicho adoro e sempre penso nele quando o PIB da China não para de crescer e me dá vontade de comer broto de bambu no ching ling.

Por estar de pijama, por já passar do onze o ponteiro maior, por não ter uma fazeção digna qualquer em vista, não me sinto com tempo, tampouco à altura de lidar com a ilustrada. Meu dia a dia está mais pra co, pra quem não sabe bem o que ti, nada pra dar e nada pra di, está difícil explicar, não é fácil estar assim a esta altura do ano. Aqui sim, dá pra entender, melhor, juiz solta preso, mãe joga filha fora, latinhas e calabresa em oferta, tensões adolescentíssimas em provas, concursos, até em casas de detenção. O famoso pimenta no dos outros, parece nos redimir, é refresco. Folheando mais, até o final, profissionais oferecem-se. Janine vinte a, serv. compl. atend.a dom. Minha mulher gostar assim, gostar, não vai.

1.10.09

O trabalho universitário

Arismar, finalmente em Brasília! Estava animado o Arismar. Desde Juiz de Fora até a capital. Dizem que o ar é seco e a mãe, bem, a mãe só quer cuidar do pequerrucho, que não se esqueça da foto na esplanada, bem tirada, lembre-se ficar contra a luz. Agora é chegar ao Senado, não vai ter problema. Ele já entrou na internet, fez o registro, enviou a módica requisição em três vias assinada pelo professor doutor em economia e direito da universidade federal de Minas Gerais, prezados, venho por meio desta e tal, solicitar presença do aluno Arismar das Neves na comissão de ética, audiência número xis da data. Estava com tudo preparado, o mini-gravador, o bloquinho, três canetas calibre prevenir é melhor que remediar. Em pauta o julgamento de mérito interposto pelo nanico partido neo-socialista, acusatório de improbidade administrativa, peculato e nepotismo do digníssimo parlamentar senador Eurígenes Luna.

O ar é seco mesmo, a caminhada pelos corredores do congresso incluiu uma tonturinha parecida com aquele dia em que se sentiu levemente alterado nas ruas carnavalescas de Ouro Preto. Chegou até a bater um pequeno papo, um tanto etéreo, com as curvas do Niemeyer, os longos tapetes abacate escuro e a série verticalizada de vidros. Percorreu um longo trecho de portas, corredores e portarias em pouco tempo, sempre acompanhado do segurança com radinho de ondas curtas e alinhado terno. Chegou finalmente. Abriu com cuidado a porta de mogno escuro e plaquinha prateada “comissão de ética”. Pé ante pé, no espaço exíguo entre os jornalistas, acomodou-se num cantinho. Reconheceu de cara o senador de cabelos compridos. Deve-se reconhecer, vossa excelência há de concordar, que nos termos do regimento desta casa... Arismar anotando tudo e suando frio no ar condicionado. A contratação de pessoas de íntima relação... - e então reparou que o relógio de parede às vezes mudava de cor – é inadmissível, postura aviltante e acintosa! O ar ficou rarefeito de vez, pobre Arismar, já não entendia mais nada. Decidiu sair um bocadinho, tomar um gole d’água.

Saiu e viu lá longe uma placa no teto, talvez indicasse o sanitário. Não indicava, mas seguiu assim mesmo um longo corredor acarpetado. Abriu uma porta pesada de ferro, mais um caminho à esquerda, deu num longo corredor com várias portas, dos dois lados. Uma delas dizia “diretoria do senado”, Arismar não quis incomodar. As outras não tinham identificação. Escolheu uma e bateu, com licença, nada de resposta. Lá dentro apenas um assessor. Parecia jovem, dormia no sofá. Deu meia volta, mas a porta saiu em outro lugar. Eita Arismar! Bem que a mãe avisou pra se alimentar melhor, levar umas bolachinhas... Agora uma vasta sala de reunião com imponentes quadros, parecia Portinari, e mais uma coleção de vidros verticais à esquerda. Olhou a paisagem, pensou em pedir ajuda, acenar, mas estava alto e só havia mais tapetes, de concreto branco e grama bem verde. Debaixo de um suposto Portinari havia um recorte na parede, como uma porta secreta. Arismar empurrou e saiu num corredor miúdo com cofres embutidos em ambos os lados. No final, uma luz branca piscando.

Que alívio! Agora sim, reconheceu o lugar, via sempre na televisão. O painel, a imponente fileira dos membros da Mesa, os cadeirões de couro azul frente a frente às plaquinhas com nomes familiares. Ali já havia dois seguranças de radinho, um de cada lado. Dois ou três parlamentares discutiam alguma coisa em frente ao microfone central. Outros aqui e ali sentados analisavam papéis. Era uma plena terça-feira, onze e vinte e sete. O ar ainda mais seco e frio quase podia ser ouvido, tal o silêncio. Arismar experimentou um cadeirão. Senador Ismael Trigueiro de Almeida – PRJ – Amapá. Abriu o bloco de notas, alinhou suas canetas acima e à direita. Respirou fundo. Pensou na mãe, que investira tanto! Estava pronto para escrever um excelente trabalho. O professor doutor vai ficar muito satisfeito.

28.9.09

O mágico dos ratos

O menino enfim entendeu o que todos gritavam ao observar atentamente o movimento dos lábios da mãe. A cidade está infestada de ratos! Sentiu a vibração forte no chão e achou o irmão na sala, frenético com a vassoura, olhar desesperado, pancada atrás de pancada. Tentou ajudar, mas a boca do irmão mexia rápida, enérgica, e ele o empurrou apontando a porta da cozinha onde a mãe chorava de pé em cima da mesa. As panelas pareciam passear sozinhas no chão, ele seguia os movimentos e acumulava panelas nas mãos depois de arremessar os ratos longe. A mãe inutilmente tentava fazê-lo parar e pedir que subisse ali. Parou na porta de casa por alguns instantes. Nunca vira tanta gente correndo ao mesmo tempo, os braços pra cima, as bocas tão abertas. O movimento asqueroso dos bichos pela rua não o assustava, parecia um enorme desenho mágico.

Levou algum tempo para chegar à praça. A cidade está infestada de ratos! – agora já reconhecia a frase na boca das outras mulheres de olhos esbugalhados. O sino se movimentava rápido demais na torre da igreja e ele sabia que não era meio-dia. Ali viu pela primeira vez o rei de perto. Estava ao lado da guilhotina. A vasta barba do rei não o deixava entender nada, mas o olhar confiante dizia alguma coisa. Correu na direção em que o governante apontava sem parar. Avistou de longe o homem magro de chapéu engraçado com a vareta na boca. Em passos tranquilos, comandava o tapete de ratos.

E agora? – pensou. O que vai acontecer com os ratos? Quando os últimos da fila já sumiam no horizonte seu irmão apareceu com ar bravo, mas aliviado, dizendo coisas. Tomou-o pela mão com firmeza e seguiram de volta pra casa. No caminho as pessoas pulavam juntas ao mesmo tempo e rodavam, como nas festas de final de ano e nos dias de feira. A mãe juntava os restos da cozinha e sorriu ao vê-los chegar. Aos poucos foi voltando a velha tranquilidade e o menino sentou no chão cabisbaixo. Vamos à igreja! – disse a mãe ao irmão. Quem disse que a cidade está infestada de ratos? Vamos já agradecer. O menino seguiu atrás, devagar, logo depois.

O final de tarde estava agradável, acompanhado de um lindo pôr-do-sol. A mãe, como de costume, deixou que os filhos brincassem na escadaria da igreja. O irmão logo se integrou a uma roda de crianças. Aparentemente, uma delas mexia os lábios com força e outra saia correndo em volta tentando pegar. O menino se distraiu com a longa fila de formigas que levavam pedaços de folhas pra dentro de um buraco da escada. Com um pequeno galho, ajudou as pequenas em seu trabalho. Quando virou o olhar, minutos depois, todas as crianças haviam sumido. Só conseguiu ver lá longe o menino de muletas caminhando afoito na mesma direção em que seguiu o tapete de ratos. Ainda caminhou meio sem rumo pela pequena praça. Pensou em entrar e avisar a mãe, mas logo desistiu. Não era nada novo, apenas o irmão que foi brincar na mata e dele se esqueceu.

8.9.09

João-bobo no céu

O professor aconselhou evitar os primeiros vinte segundos, eu sei. Queria ter medo de altura, esperar o tal frio na barriga. Vou enfrentar meu ridículo, fingir com cara de sonsa a aflição de estar aqui em cima. Já ouço as palminhas e algum conselho ridículo para melhorar na próxima. Depois provavelmente vamos de novo, a mesma fila, na próxima semana pequena variação, o vestiário terrível. Quero ter agonia agora, no banho ela vem atrasada, as respostas das banalidades de meninas e o êxtase coletivo acabam com meu dia. Bem poderia ter a cabeça de ferro, pular de ponta bem reto, quebrar o fundo da piscina e sair apoteótica na garagem, rir dos carros todos inundando.

Alguns passos pra frente, para adiar a impaciência do público, podem ser úteis. Adoro esse vai e vem da ponta da táboa. Um João-bobo parece tanto comigo! Escancararia sorrisos sem a pintura por fora? Talvez com braços, pelo menos, se comunicasse melhor. Dois sinais de dedo médio dariam conta, fazer agora causaria uma comoção divertida. Uma pena, uma das poucas vontades maiores é passar batida, andar em paz no caminho pra casa. Meu quarto esta hora paira como eu gosto, os livros, papéis, coisas inúteis no chão, o computador ligado nas pessoas certas.

Falta pouco. Abro os braços, olhos bem fechados, curtindo as manchas brancas de luz aparecendo, sempre fazia quando era criança. Saio voando pelo quintal, nos braços do pai, cheiro a grama, enquanto vozes dispersas de mulheres lançam alguma reprimenda. Num sonho recente, misturei isso com uma festa colorida na piscina, eu já saia linda, de roupa nova, joias nunca vistas, pessoas legais em rodas dispersas, sem pressa, só conversando. Mais vozes, lá debaixo – vai logo! – depois algum xingamento incompreensível, misturado com outros. Saco... Acabo cansando e pulo. A queda triste e sem graça dos Joões fabricados em plástico de segunda categoria.

8.4.09

Barulhos e neuroses de um paulistano

Algum tempo atrás, parando para ler o blog do Eric Lovric (link ao lado), me deparei com essa animação genial do Popeye.  Era meu desenho animado favorito na infância. Minha mãe conta que quando eu estava no "Jardim" (sei lá como chama isso hoje), dizia a todos os coleguinhas que eu era o Popeye. O canastrão ainda jurava que quando comia espinafre ganhava força descomunal.



O problema foi que um belo dia um coleguinha, provavelmente bem intencionado (acredito que o espírito de porco só aflora na adolescência - antes disso a crueldade do ser humano criança é meramente o exercício da sinceridade), pediu para a mãe colocar na lancheira uma trouxinha de espinafre cozido. "É pro meu amigo lá da escola. Ele diz que é o Popeye e vai ficar forte depois de comer o espinafre!". Desgraçado esse moleque. Eu era neurótico desde criança. Não comia nada além de arroz, feijão, bife e batata frita. Comi minha primeira pizza quando tinha, no mínimo, uns quatorze anos. Legumes e salada? Uns vinte e três, chutando baixo.

De acordo com o relato da professora do "Jardim" à minha mãe, na hora em que o fedelho sacou o espinafre da lancheira, todo engordurado num guardanapo azul claro (tenho o flash do guardanapo azul, da gosma verde e do sorriso do menino até hoje na memória), no meio de uma rodinha em que estavam presentes no mínimo um terço da classe, eu fiquei branco. Parei, respirei fundo, saquei a minha lancheira, peguei meia dúzia de bolachas MARIA (aquelas que vendiam num pacote amarelo da Tostines nos anos 80) e falei: "Eu não preciso. Estas bolachas que minha mãe me deu já contêm espinafre!".

Mas eu não estava planejando escrever sobre Popeye e espinafre. Queria falar sobre barulho. Aliás, quem vir o vídeo, note que no começo o pai do Popeye diz que está de ressaca. O Popeye começa a quebrar tudo na vizinhança, afinal seu pobre pai precisava descansar. Uma pena que isso não aconteça na vida real.  Sinto minha vida na rua Afonso de Freiras, no Paraíso, como uma repetição incessante desse desenho. Não me lembro de nenhum período, desde a minha tenra infância, em que não houvesse uma obra em construção no nosso quarteirão.

Obra no quarteirão é uma delícia. Primeiro começa o bate-estaca. É praticamente um terremoto induzido. Um objeto fálico de 20 metros de metal bombando a superfície terrestre. Passado esse primeiro momento, começa a tortura dos ruídos esparsos e sem sentido. Por exemplo: sempre tem um peão, com uma marreta de meio metro na mão, batendo numa viga de metal gigantesca, com toda força. Eu sempre me perguntei, num dos milhares de tardes em que tentava tirar um cochilo à tarde depois da escola, já apelando à intervenção divina: "Senhor... eu sei que não sou engenheiro. Mas porque esse cidadão está esmurrando a viga com essa marreta? Eu estou aprendendo operações com números complexos na aula de álgebra e estou entendendo alguma coisa. Por que não consigo entender isso?"

 As interrupções do meu sono vespertino despertavam em mim instintos assassinos. Estudei num dos colégios "fortes" de São Paulo, o Bandeirantes. Costumávamos varar a noite estudando na semana de provas e depois dormir depois do almoço. Super saudável, diga-se de passagem. Toda vez que eu acordava com um barulho insuportável de obra, eu sonhava com aquela cena do "Rambo II", em que o Stallone saca um arco e flecha com ponta de bomba supersônica, mira no vietcong e ele BUM! - simplesmente sumia da superfície terrestre. Felizmente, o máximo que eu concretizei, em dias de muita revolta, foi uma série de disparos de papéis higiênicos molhados nos vendedores de pamonhas de Piracicaba que passavam na Afonso de Freitas.

Acho meio melancólico o fato de ter me tornado uma pessoa pior, em certo sentido, não devido ao barulho em si, mas pela absoluta impotência que todo paulistano tem pra lutar contra o barulho insano em que a gente vive. Uma revolta acumulada vai tomando conta, a ponto de despertar atitudes escrotas. Nos últimos dois anos e meio morei no interior de São Paulo, em Jaguariúna. As pessoas paulistanas me perguntavam: “Nossa, mas você está gostando? O que tem pra fazer lá?”. Eu respondia: “Nada. Mas tem silêncio. Dá pra ouvir os grilos de noite”. Quando eu voltava pra São Paulo, não buzinava mais no trânsito, não fechava todo mundo e não xingava os velhinhos de chapéu que me faziam esperar mais um farol vermelho. Meu Popeye interno serenou.