8.9.09

João-bobo no céu

O professor aconselhou evitar os primeiros vinte segundos, eu sei. Queria ter medo de altura, esperar o tal frio na barriga. Vou enfrentar meu ridículo, fingir com cara de sonsa a aflição de estar aqui em cima. Já ouço as palminhas e algum conselho ridículo para melhorar na próxima. Depois provavelmente vamos de novo, a mesma fila, na próxima semana pequena variação, o vestiário terrível. Quero ter agonia agora, no banho ela vem atrasada, as respostas das banalidades de meninas e o êxtase coletivo acabam com meu dia. Bem poderia ter a cabeça de ferro, pular de ponta bem reto, quebrar o fundo da piscina e sair apoteótica na garagem, rir dos carros todos inundando.

Alguns passos pra frente, para adiar a impaciência do público, podem ser úteis. Adoro esse vai e vem da ponta da táboa. Um João-bobo parece tanto comigo! Escancararia sorrisos sem a pintura por fora? Talvez com braços, pelo menos, se comunicasse melhor. Dois sinais de dedo médio dariam conta, fazer agora causaria uma comoção divertida. Uma pena, uma das poucas vontades maiores é passar batida, andar em paz no caminho pra casa. Meu quarto esta hora paira como eu gosto, os livros, papéis, coisas inúteis no chão, o computador ligado nas pessoas certas.

Falta pouco. Abro os braços, olhos bem fechados, curtindo as manchas brancas de luz aparecendo, sempre fazia quando era criança. Saio voando pelo quintal, nos braços do pai, cheiro a grama, enquanto vozes dispersas de mulheres lançam alguma reprimenda. Num sonho recente, misturei isso com uma festa colorida na piscina, eu já saia linda, de roupa nova, joias nunca vistas, pessoas legais em rodas dispersas, sem pressa, só conversando. Mais vozes, lá debaixo – vai logo! – depois algum xingamento incompreensível, misturado com outros. Saco... Acabo cansando e pulo. A queda triste e sem graça dos Joões fabricados em plástico de segunda categoria.

Um comentário:

Fernando Lessa disse...

Este pulo é sempre imprevisível. Tem mais é que pular mesmo...