28.10.09

Antropologia de caminhão

Cuiabá estava em polvorosa. Repórteres de todos os respeitáveis meios de comunicação apinhavam-se à porta do pequeno sobrado verde, geminado a um azul e a um descascado. Dona Alzira saiu enfim, abraçada às tradicionais papagaias de pirata da família. Emocionada, balbuciou agradecimentos a Nossa Senhora, Santo Antônio, Jesus Cristo, Deus e à Polícia Federal. Há dois meses desaparecido, seu esposo, Alcides da Silva, caminhoneiro profissional há mais de trinta anos, fora encontrado como efeito colateral da Operação Pajé Ubirajara, estratégia secreta de nossa força nacional em busca de traficantes de ouro e aliciadores de menores no sul do Mato Grosso. O velho Alcides, em aparente overdose de ayahuasca, chamou a atenção dos policiais à paisana ao desfilar, seminu, em tangas de crochê e ornamentos penosos, pela praça central de Campo Novo de Parecis, gritando a pleno pulmões que era a encarnação de Peró Naruê Xantim. A despeito disso, os munícipes já o conheciam pela alcunha de “Cidão Caramuru”.

Acreditando-se em bocas de Matilde parecisenses, parece que a história se passou como segue. Alcides já deixara Cuiabá bastante aborrecido com seu supervisor, um trainee esnobe que se divertia enviando a velha guarda da firma aos destinos menos nobres. Sua incumbência era buscar a soja produzida em Sapezal, nos quilômetros finais da rodovia MT-235, mais conhecida entre ele e seus companheiros como a porra da rodovia do índio. Já antecipando o quão difícil seria escapar dos atoleiros, o experiente caminhoneiro encheu sua cabine de mandingas anti-pluviais. Ainda assim rodou e rodou entoando rezas com a figurinha de Nossa Senhora dobradinha e presa ao anel do dedo mindinho. Ao se aproximar da terrível travessia florestal, surpreendeu-se com um monumental tapete asfáltico, ainda perfumado de nova tinta amarela. Como se a santa lhe dissesse que não era sonho, avistou a placa: “Pedágio dos índios – 3 KM”.

Ainda entorpecido, Alcides não resistiu a uma piadinha na cabine número três, boa tarde, aceita miçanga? A bonita nativa pareci não entendeu, não sorriu, falou são dez reais senhor e estendeu-lhe um recibo e um folheto: “VISITE A PARADA AMIGA PARECI”. Alheio aos riscos de adentrar o caminhão naquela excêntrica vicinal, Alcides rodou, passou pelo Capivara Grill, barraquinhas de artesanato, pelo Alligator’s Burguers, pelas casinhas de protótipos de pajé ofertando ervas e curas, mas foi parar mesmo no Iracema’s – Honey Lips Virgins, graças ao neon vermelho e azul recém-inaugurado. Ali conheceu Suzana, linda mestiça de índios com missionários neozelandeses, apaixonou-se, prometeu tirá-la da vida, ignorou Dona Alzira que a estas horas já dormia tranqüila lá em Cuiabá. E logo no estacionamento do motel Xanxerê Xanchadas lhe depenaram todo o caminhão, não perdoaram nem a foto de Dona Alzira, ainda jovem, colada ao cd riscado do rei Roberto que ele pendurava no retrovisor.

Em meio à confusão, foi apresentado a um tipo meio esquisito com shorts adidas que se dizia cunhado de Suzana. Ponderou-lhe que a delegacia mais próxima ficava só em Sapezal e sugeriu que tomassem uma cachacinha pra esfriar a cabeça. Este meliante encontra-se neste momento detido por suspeita de envolvimento no ilícito, mas o que importa é que Alcides tomou sete doses de ayahuasca convencido de que era pinga com ervas da região. O paradeiro e as desventuras de Alcides nos dois meses que passou na selva, lamentavelmente, são difíceis de reconstituir, considerando as restrições imposta pelo Ibama e pela Funai para a devida proteção dos códigos culturais parecis. Alcides se encontra agora discursando em rede nacional de televisão, ao vivo de Cuiabá, carinhosamente abraçado com Dona Alzira e seus filhos. Parece solene e elogia as iniciativas do atual governo com vistas ao progresso do país.

24.10.09

Ponto de interrogação

E aqui estou, levando este nobre currículo pra entrevista. Ele não acreditou, aposto, quando falei que já trabalhei onde trabalhei. O cara é até gente fina, mas pensa que taxista é periferia. A periferia é que está em nós, maluco. Deixa passar dois anos, ele vai ver onde leva esse currículo. Cansei de fazer ponto com playboy frustrado do Jardins. Neguinho foi lá, passou na faculdade, meia-boca, papai fez churrasco, passou quatro anos puxando fumo, enchendo a cara, teco-teco na farinha e tchaca tchaca na butchaca, chamando loirinha de Galisteu. Só que tem o seguinte: acabou a faculdade, vai disputar vaga com o japonês. E quando o japonês abduz a planilha, faz as paradas, seu chefe não vai nem lembrar o seu crachá. E aí você vai ver que esse taxi está estacionado mais perto da sua casa do que você imagina.

- Mas diz aí, dá pra tirar um cascalho razoável nesse ponto, ou nem?

Olha lá, falei. Não é por acaso que os meus grisalhos são o terror da Cidade Ademar. Eu tenho nas veias o conhecimento. O fluxo das idéias, sapiência de quem dá a idéia. A molecada me chama de mestre dos magos. Se fosse no Rio, todos os camaradinhas me respeitam. Não dou cinco minutos pra gravatinha sacar um assunto de futebol. Neguinho pensa que taxista só sabe falar de futebol. Só falta ser corintiano. Se bem que não. Puta que pariu, pá-pum, é corintiano. Loirinho assim, quando é corintiano, acha que a periferia toda só tem gambá.

- Pô, diz aí, não dou seis meses pra levarem o Dentinho pro Barcelona.

Não vou nem lançar que o meu pai era faxineiro do Cícero Pompeu e lá em casa é todo mundo tricolor. Mesmo porque não é verdade. Mas vou até mudar de assunto, se ele começar com pagação de Ronaldo eu vou meter bandeira dois. Quero ver ele falar de trabalho, vamos ver se eu não conheço esses sistemas aí que você usa, SAP, Microsiga. É, está impressionado, não falei? Gostando das bolinhas aí atrás do banco? Vai se acostumando. A não ser que você seja menos cabaço do que eu e não vá engravidar uma vadia. Se bem que, sinceramente, você tem jeito de quem não pega ninguém há uns oito meses.

- Já veio nessa balada aqui? Pô, cara, têm várias minas.

Vamos lá, vamos lá, estamos chegando, Vila Olímpia, a Wall Street da classe média paulistana. Só que sem a Melanie Griffith. Cheio de maninho do Morumbi vindo aqui trabalhar doze horas por dia pra ganhar dois conto por mês. A periferia aqui ganha mais, filho, vai vendo. Quatro meia oito, é aqui. Vai mano, vai. Boa sorte. E o pior é que é boa sorte mesmo, senão é mais um pra me urubuzar o ponto.

15.10.09

Folheando

A Argentina na Copa está, nossa torcida a pesar. Posso que esta foi a primeira notícia do dia dizer. Meu cérebro de manhã, meu cérebro precisa, ele precisa de um café forte pra pegar no tranco. Não tem jeito, se não for do meu saber no pó, no vidro e na pazinha, a quantidade exata. E na minha máquina. Ah, boa notícia, o governo a desasucrinar, vai restituir o imposto, o meu, o seu, o nosso suor e a renda, tudo junto, eu pelo menos espero. Enquanto não acordo aquele despertar do colega que, sempre chegando mais cedo e mais disposto, alegrista e conferencista, você odeia, meu conselho sugestivo é falar comigo só daqui a meia hora. Depois do jornal. Junto com a tinta que emporcalha os dedos, atrapalhando o biscoitismo, as mesmices, o lucro recorde dos bancos animando o mercado, me incomoda. O prefeito, por seu turno, cumpre sua antipalavra de campanha, parcela (sem juros!) o aumento do imposto predial, territorial, urbano e decreta: no que se refere ao primeiro caderno, nada mais a declarar.

Do torneio eliminatório dos cadernos, veículos empatou com imóveis, assegurando a vaga do esportes. Maradona esbraveja, Dunga resmunga, minha mulher caga e anda, eu bocejo de novo, pego mais café. O cronista, imbuído do poder eu já sabia, rebate os respostismos a raquetadas, sempre paragrafando em pouco brilho. Honduras, em estado de sítio, dá motivo de gritismo aos gansos, ovelhas, bovinos e pulgões, está na Copa. As notinhas canto de página do ciclismo, do tênis e da ginástica, apêndices do anúncio página toda, a promoção (sem juros!) de toda sorte de cromossomidade celular, alertam: há um possível campeão mundial, mas parece que ele não gosta de sair na foto.

Minha mulher saiu pra fazer isso que está reportado na matéria de capa do empregos, que eu passo, por estar desconexo da minha realidade agoral e, mais por uma obrigação, vou ao dinheiro. “Arrecadação do imposto sindical dispara”. Chorei. “Uma linha de crédito a mais, uma preocupação a menos”, claro que sim, diga isso pra minha digníssima, a vossa advogadeza que acaba de sair. O que, o imposto foi criado nos anos 40 por Vargas? Aí sim, adoro o bom velhinho, eu gostaria de ter vivido na época dele, ou talvez o que eu goste mesmo não vai mais ser publicado, as histórias, do meu avô, o gauchão. A bolsa sobe 2,4%, com o dólar a 1,70, eu poderia ir a Nova Iorque se o resgate não tivesse, se a minha vale já não fosse tão ordinária. Mas pra mim o que mais vale é o panda, esse bicho adoro e sempre penso nele quando o PIB da China não para de crescer e me dá vontade de comer broto de bambu no ching ling.

Por estar de pijama, por já passar do onze o ponteiro maior, por não ter uma fazeção digna qualquer em vista, não me sinto com tempo, tampouco à altura de lidar com a ilustrada. Meu dia a dia está mais pra co, pra quem não sabe bem o que ti, nada pra dar e nada pra di, está difícil explicar, não é fácil estar assim a esta altura do ano. Aqui sim, dá pra entender, melhor, juiz solta preso, mãe joga filha fora, latinhas e calabresa em oferta, tensões adolescentíssimas em provas, concursos, até em casas de detenção. O famoso pimenta no dos outros, parece nos redimir, é refresco. Folheando mais, até o final, profissionais oferecem-se. Janine vinte a, serv. compl. atend.a dom. Minha mulher gostar assim, gostar, não vai.

1.10.09

O trabalho universitário

Arismar, finalmente em Brasília! Estava animado o Arismar. Desde Juiz de Fora até a capital. Dizem que o ar é seco e a mãe, bem, a mãe só quer cuidar do pequerrucho, que não se esqueça da foto na esplanada, bem tirada, lembre-se ficar contra a luz. Agora é chegar ao Senado, não vai ter problema. Ele já entrou na internet, fez o registro, enviou a módica requisição em três vias assinada pelo professor doutor em economia e direito da universidade federal de Minas Gerais, prezados, venho por meio desta e tal, solicitar presença do aluno Arismar das Neves na comissão de ética, audiência número xis da data. Estava com tudo preparado, o mini-gravador, o bloquinho, três canetas calibre prevenir é melhor que remediar. Em pauta o julgamento de mérito interposto pelo nanico partido neo-socialista, acusatório de improbidade administrativa, peculato e nepotismo do digníssimo parlamentar senador Eurígenes Luna.

O ar é seco mesmo, a caminhada pelos corredores do congresso incluiu uma tonturinha parecida com aquele dia em que se sentiu levemente alterado nas ruas carnavalescas de Ouro Preto. Chegou até a bater um pequeno papo, um tanto etéreo, com as curvas do Niemeyer, os longos tapetes abacate escuro e a série verticalizada de vidros. Percorreu um longo trecho de portas, corredores e portarias em pouco tempo, sempre acompanhado do segurança com radinho de ondas curtas e alinhado terno. Chegou finalmente. Abriu com cuidado a porta de mogno escuro e plaquinha prateada “comissão de ética”. Pé ante pé, no espaço exíguo entre os jornalistas, acomodou-se num cantinho. Reconheceu de cara o senador de cabelos compridos. Deve-se reconhecer, vossa excelência há de concordar, que nos termos do regimento desta casa... Arismar anotando tudo e suando frio no ar condicionado. A contratação de pessoas de íntima relação... - e então reparou que o relógio de parede às vezes mudava de cor – é inadmissível, postura aviltante e acintosa! O ar ficou rarefeito de vez, pobre Arismar, já não entendia mais nada. Decidiu sair um bocadinho, tomar um gole d’água.

Saiu e viu lá longe uma placa no teto, talvez indicasse o sanitário. Não indicava, mas seguiu assim mesmo um longo corredor acarpetado. Abriu uma porta pesada de ferro, mais um caminho à esquerda, deu num longo corredor com várias portas, dos dois lados. Uma delas dizia “diretoria do senado”, Arismar não quis incomodar. As outras não tinham identificação. Escolheu uma e bateu, com licença, nada de resposta. Lá dentro apenas um assessor. Parecia jovem, dormia no sofá. Deu meia volta, mas a porta saiu em outro lugar. Eita Arismar! Bem que a mãe avisou pra se alimentar melhor, levar umas bolachinhas... Agora uma vasta sala de reunião com imponentes quadros, parecia Portinari, e mais uma coleção de vidros verticais à esquerda. Olhou a paisagem, pensou em pedir ajuda, acenar, mas estava alto e só havia mais tapetes, de concreto branco e grama bem verde. Debaixo de um suposto Portinari havia um recorte na parede, como uma porta secreta. Arismar empurrou e saiu num corredor miúdo com cofres embutidos em ambos os lados. No final, uma luz branca piscando.

Que alívio! Agora sim, reconheceu o lugar, via sempre na televisão. O painel, a imponente fileira dos membros da Mesa, os cadeirões de couro azul frente a frente às plaquinhas com nomes familiares. Ali já havia dois seguranças de radinho, um de cada lado. Dois ou três parlamentares discutiam alguma coisa em frente ao microfone central. Outros aqui e ali sentados analisavam papéis. Era uma plena terça-feira, onze e vinte e sete. O ar ainda mais seco e frio quase podia ser ouvido, tal o silêncio. Arismar experimentou um cadeirão. Senador Ismael Trigueiro de Almeida – PRJ – Amapá. Abriu o bloco de notas, alinhou suas canetas acima e à direita. Respirou fundo. Pensou na mãe, que investira tanto! Estava pronto para escrever um excelente trabalho. O professor doutor vai ficar muito satisfeito.