1.10.09

O trabalho universitário

Arismar, finalmente em Brasília! Estava animado o Arismar. Desde Juiz de Fora até a capital. Dizem que o ar é seco e a mãe, bem, a mãe só quer cuidar do pequerrucho, que não se esqueça da foto na esplanada, bem tirada, lembre-se ficar contra a luz. Agora é chegar ao Senado, não vai ter problema. Ele já entrou na internet, fez o registro, enviou a módica requisição em três vias assinada pelo professor doutor em economia e direito da universidade federal de Minas Gerais, prezados, venho por meio desta e tal, solicitar presença do aluno Arismar das Neves na comissão de ética, audiência número xis da data. Estava com tudo preparado, o mini-gravador, o bloquinho, três canetas calibre prevenir é melhor que remediar. Em pauta o julgamento de mérito interposto pelo nanico partido neo-socialista, acusatório de improbidade administrativa, peculato e nepotismo do digníssimo parlamentar senador Eurígenes Luna.

O ar é seco mesmo, a caminhada pelos corredores do congresso incluiu uma tonturinha parecida com aquele dia em que se sentiu levemente alterado nas ruas carnavalescas de Ouro Preto. Chegou até a bater um pequeno papo, um tanto etéreo, com as curvas do Niemeyer, os longos tapetes abacate escuro e a série verticalizada de vidros. Percorreu um longo trecho de portas, corredores e portarias em pouco tempo, sempre acompanhado do segurança com radinho de ondas curtas e alinhado terno. Chegou finalmente. Abriu com cuidado a porta de mogno escuro e plaquinha prateada “comissão de ética”. Pé ante pé, no espaço exíguo entre os jornalistas, acomodou-se num cantinho. Reconheceu de cara o senador de cabelos compridos. Deve-se reconhecer, vossa excelência há de concordar, que nos termos do regimento desta casa... Arismar anotando tudo e suando frio no ar condicionado. A contratação de pessoas de íntima relação... - e então reparou que o relógio de parede às vezes mudava de cor – é inadmissível, postura aviltante e acintosa! O ar ficou rarefeito de vez, pobre Arismar, já não entendia mais nada. Decidiu sair um bocadinho, tomar um gole d’água.

Saiu e viu lá longe uma placa no teto, talvez indicasse o sanitário. Não indicava, mas seguiu assim mesmo um longo corredor acarpetado. Abriu uma porta pesada de ferro, mais um caminho à esquerda, deu num longo corredor com várias portas, dos dois lados. Uma delas dizia “diretoria do senado”, Arismar não quis incomodar. As outras não tinham identificação. Escolheu uma e bateu, com licença, nada de resposta. Lá dentro apenas um assessor. Parecia jovem, dormia no sofá. Deu meia volta, mas a porta saiu em outro lugar. Eita Arismar! Bem que a mãe avisou pra se alimentar melhor, levar umas bolachinhas... Agora uma vasta sala de reunião com imponentes quadros, parecia Portinari, e mais uma coleção de vidros verticais à esquerda. Olhou a paisagem, pensou em pedir ajuda, acenar, mas estava alto e só havia mais tapetes, de concreto branco e grama bem verde. Debaixo de um suposto Portinari havia um recorte na parede, como uma porta secreta. Arismar empurrou e saiu num corredor miúdo com cofres embutidos em ambos os lados. No final, uma luz branca piscando.

Que alívio! Agora sim, reconheceu o lugar, via sempre na televisão. O painel, a imponente fileira dos membros da Mesa, os cadeirões de couro azul frente a frente às plaquinhas com nomes familiares. Ali já havia dois seguranças de radinho, um de cada lado. Dois ou três parlamentares discutiam alguma coisa em frente ao microfone central. Outros aqui e ali sentados analisavam papéis. Era uma plena terça-feira, onze e vinte e sete. O ar ainda mais seco e frio quase podia ser ouvido, tal o silêncio. Arismar experimentou um cadeirão. Senador Ismael Trigueiro de Almeida – PRJ – Amapá. Abriu o bloco de notas, alinhou suas canetas acima e à direita. Respirou fundo. Pensou na mãe, que investira tanto! Estava pronto para escrever um excelente trabalho. O professor doutor vai ficar muito satisfeito.

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