24.10.09

Ponto de interrogação

E aqui estou, levando este nobre currículo pra entrevista. Ele não acreditou, aposto, quando falei que já trabalhei onde trabalhei. O cara é até gente fina, mas pensa que taxista é periferia. A periferia é que está em nós, maluco. Deixa passar dois anos, ele vai ver onde leva esse currículo. Cansei de fazer ponto com playboy frustrado do Jardins. Neguinho foi lá, passou na faculdade, meia-boca, papai fez churrasco, passou quatro anos puxando fumo, enchendo a cara, teco-teco na farinha e tchaca tchaca na butchaca, chamando loirinha de Galisteu. Só que tem o seguinte: acabou a faculdade, vai disputar vaga com o japonês. E quando o japonês abduz a planilha, faz as paradas, seu chefe não vai nem lembrar o seu crachá. E aí você vai ver que esse taxi está estacionado mais perto da sua casa do que você imagina.

- Mas diz aí, dá pra tirar um cascalho razoável nesse ponto, ou nem?

Olha lá, falei. Não é por acaso que os meus grisalhos são o terror da Cidade Ademar. Eu tenho nas veias o conhecimento. O fluxo das idéias, sapiência de quem dá a idéia. A molecada me chama de mestre dos magos. Se fosse no Rio, todos os camaradinhas me respeitam. Não dou cinco minutos pra gravatinha sacar um assunto de futebol. Neguinho pensa que taxista só sabe falar de futebol. Só falta ser corintiano. Se bem que não. Puta que pariu, pá-pum, é corintiano. Loirinho assim, quando é corintiano, acha que a periferia toda só tem gambá.

- Pô, diz aí, não dou seis meses pra levarem o Dentinho pro Barcelona.

Não vou nem lançar que o meu pai era faxineiro do Cícero Pompeu e lá em casa é todo mundo tricolor. Mesmo porque não é verdade. Mas vou até mudar de assunto, se ele começar com pagação de Ronaldo eu vou meter bandeira dois. Quero ver ele falar de trabalho, vamos ver se eu não conheço esses sistemas aí que você usa, SAP, Microsiga. É, está impressionado, não falei? Gostando das bolinhas aí atrás do banco? Vai se acostumando. A não ser que você seja menos cabaço do que eu e não vá engravidar uma vadia. Se bem que, sinceramente, você tem jeito de quem não pega ninguém há uns oito meses.

- Já veio nessa balada aqui? Pô, cara, têm várias minas.

Vamos lá, vamos lá, estamos chegando, Vila Olímpia, a Wall Street da classe média paulistana. Só que sem a Melanie Griffith. Cheio de maninho do Morumbi vindo aqui trabalhar doze horas por dia pra ganhar dois conto por mês. A periferia aqui ganha mais, filho, vai vendo. Quatro meia oito, é aqui. Vai mano, vai. Boa sorte. E o pior é que é boa sorte mesmo, senão é mais um pra me urubuzar o ponto.

Um comentário:

Edison Junior disse...

Gostei!