6.11.09

O descobridor de Potosí

Havia entre os ibéricos, desde medievais eras, verdadeira adoração pelos brasões. Assim o demonstra o orgulho sóbrio com que a família espanhola Garcez Vásquez exibiu sua cor em bandeiras no porto de Lisboa em 12 de novembro de 1518. Partia naquele dia um de seus mais ilustres fidalgos, D. Diego Garcez Vásquez, capitão da expedição exploratória a serviço do monarca português D. João III, o Piedoso. Ao caminhar em direção a nau Santa Madalena, o manto de D. Diego adquiriu espantoso brilho, fundindo-se à cor preponderante de seu brasão em algo sólido e único. Levantadas as velas, sua embarcação e as demais da frota fundiram-se ao mar e céu, o próprio sol escureceu antes da noite e o capitão desapareceu na uniformidade, muito antes de atingir o horizonte. Nesta toada conduziram-se, como num vôo, até as águas cristalinas dos rios do sul da América.

Atracaram na baía de Santa Catarina, inteira tomada por matas e gramíneas. Mal se podia ver a areia. A expedição, além de seus homens, contava com índios carijós trajados em folhas, fibras e cordas de cipó. Livre de seu manto incompatível aos ares tropicais, D. Diego conduzia o grupo com desenvoltura impressionante, como se prescindisse de qualquer orientação dos nativos. Os homens atribuíam sua estranha nova coloração às febres tropicais. Em muitos momentos, embrenhados na mata, viam o capitão desaparecer. Mais adiante, a curta distância, distinguiam-no finalmente em meio às rãs, jacarés, cobras e folhagens. O brasão, sempre carregado tal um cajado pelo explorador, também se transformava, misturado naturalmente ao ambiente fechado e hostil.

Após dois meses chegaram ao deserto. Mais da metade dos europeus perecera. D. Diego e seus homens cobriram-se de tinturas à base de pau-brasil confeccionadas pelos carijós. A proteção era necessária para resistir à exposição constante ao sol e a ausência de sombras. Sobreviveram graças à caça de animais rasteiros, assando suas carnes expostas e afiando os dentes como selvagens. A pouca madeira que encontravam pelo caminho era cuidadosamente guardada para que suportassem a temperatura da noite em volta do fogo. Após uma sangrenta batalha com índios rivais dos carijós, o corpo de D. Diego e seu brasão eram, novamente, uma só pele, esgarçada pela selvageria, indistinguível da cor dos nativos e da areia sem fim.

Tanta agrura e morte não foram em vão. O explorador fez de sua missão uma resposta às súplicas dos monarcas ibéricos. Descansou pela primeira vez seu semblante ao avistar a montanha prateada de Potosí. Foi tal seu deslumbramento que não notou a beleza da vila indígena, toda coberta de gelo e neve, as construções de pedra, os lobos e coelhos domesticados descansando à porta das casas. Conforme se aproximava da montanha, D. Diego empalidecia e seus olhos claros descoloriam. Caminhou afundando na neve até desaparecer aos olhos dos dois carijós que ainda o acompanhavam. Deitou finalmente sobre o mar de prata e não pode mais se mexer. Expôs seus dentes todos, num sorriso febril. Permitiu que sua pele absorvesse toda a força fria da montanha. Aos poucos seu corpo, e o brasão dos Garcez Vásquez, transformaram-se numa mistura sólida de gelo e carvão.

Nesta forma D. Diego retornou ao velho continente em 1556, levado por navegadores desconhecidos. A corte do rei espanhol Felipe II o recebeu a princípio com estranhamento. Contudo, logo deram início às homenagens e honrarias. Repousou, enfim, num suntuoso jazigo, descolorido, no cemitério de Madrid.

Um comentário:

Cris Fonseca disse...

Oi Iata!!! Li o texto do "Taxista" e adorei... Muito bom. Beijos