1.7.10

Crise existencial, política e econômica

Um ano e quatro meses de ócio depois, baixou hoje uma crise existencial. Não sei como a ciência define este tipo de crise. Eu entendo como aquele momento em que a gente olha os carros passando na rua, as árvores, as pessoas andando na Paulista, baixa um exú socrático e nos perguntamos: o que é o mundo, afinal? Quem sou eu? O que estou fazendo aqui? Nesta toada entediante vai minha vida: do videogame para o livro, do livro pro videogame, do videogame pra Copa, da Copa pro site do Banco Central que não me chama pra tomar posse e eu, para evitar o enlouquecimento precoce, sem querer me voluntariar para a campanha do Celso Russomano ao governo, só para encher o saco dos meus amigos de esquerda que me enchem o saco porque vou votar no Serra, vou escrever alguma coisa sobre estas coisas todas e rezar para que haja alguma conexão entre elas. Como diria Jerry Seinfeld em um dos meus episódios favoritos: “Prognosis negative”.

Relendo uma das apostilas concedidas durante o curso de formação em Brasília, uma compilação de notícias de jornal envolvendo o Banco Central, achei algo interessantíssimo que na época me passou batido. Num dos picos da crise financeira internacional de 2008, após a quebra do Lehman Brothers, o governo Lula cogitou seriamente demitir Henrique Meirelles e substituí-lo por Luiz Gonzaga Belluzzo. A julgar pela situação do glorioso Palmares, chega a dar arrepios pensar no que teria acontecido, mas isso é o de menos. O de mais é o motivo: o embate entre os desenvolvimentistas do Ministério da Fazenda e os neoliberais do Banco Central. Uma rixa antiga, longe de ser exclusividade do atual governo. Menos ainda do Brasil. Apesar do meu santo estar em pé de guerra com os santos do Nosso Guia desde que ele chegou ao poder pela primeira vez (com o meu voto, diga-se de passagem), não posso deixar de reconhecer que o cara é extremamente inteligente. Já dizia o Socrátes, safo é quem sabe que não sabe nada. Lula voltou atrás na última hora e manteve Meirelles no cargo.

Ao invés de vomitar minha opinião sobre o tema, prefiro seguir na busca de um blog o menos jornalístico possível. Quero ser anti-cagação de regra (como se isso fosse possível). Prefiro tentar um exercício parecido com o que fazem os economistas: filosofar sobre o assunto simplificando o modelo.

Estudo de Caso A - Cauã e a família neoliberal

Cauã era filho de Margarida, doutora em antropologia pela USP, e Jan Malbec, francês naturalizado e naturalista apaixonado pela Mata Atlântica. Aos quinze anos já não suportava ouvir falar de Marx, de Levi Strauss, da anistia, do LP “Transa” do Caetano. Comprou um ventilador com cinco velocidades para dispersar a marofa do apartamento. Pediu aos pais, de joelhos, que o tirassem do Equipe e o deixassem estudar no Bandeirantes. Margarida chorou de decepção, mas Jan entendeu que o filho deveria escolher seu caminho. Com vinte e dois anos Cauã estava formado na GV e efetivado numa multinacional de consultoria. Aos vinte e oito casou-se com Diana, psicóloga, paixão remanescente dos tempos do Equipe.

O primeiro conflito do casal foi por conta do apartamento. Sua linda esposa queria morar em Perdizes, ou na Vila Beatriz, mais chique e mais alternativa do que a Madalena. Cauã bateu o pé. Comprou um apartamento de setenta metros quadrados e dois dormitórios na Vila Mascote, fundamentado em cinco planilhas detalhando, entre outras coisas, o percentual ideal de endividamento de um casal em começo de carreira e um estudo comparativo do potencial de valorização imobiliária dos bairros de São Paulo. Antes das bodas de algodão, já tinham seguro de vida, plano de previdência complementar e um fundo especial para a faculdade dos futuros filhos.

Os filhos vieram e foram denominados Carolina e Ricardo. Nada de nomes alternativos de filho de psicóloga. A gestão do lar passou a ser executada por Adjane, uma moça de vinte e três anos formada em Turismo na UNIBAN. Diana disse nunca ter visto na vida uma empregada doméstica com curso superior. Cauã deu de ombros e a apelidou carinhosamente de “État”. Explicou que os dois deveriam estar focados em suas atividades profissionais, com o mínimo possível de intervenção ou mesmo interrupção. Para isso precisavam de uma pessoa qualificada para executar poucas atividades, todas essenciais, de maneira eficientíssima. Adjane tinha um excelente salário, mas o benefício tinha como condição a freqüência e o desempenho exemplar em cursos técnicos do SENAC como “Culinária refinada e saudável”. Não satisfeito, Cauã contratou mais um auxiliar. Seu Alberto, contador e economista, passou a ser o responsável pelo planejamento financeiro e tributário do lar. Logo ficou conhecido como “nosso pequeno bundesbank”. Diana passou a ser a primeira psicóloga de São Paulo a emitir nota fiscal e recolher imposto de renda.

Best Case Scenario (Este título tem que ser em inglês - afinal, a família é neoliberal)

Cauã e Diana se aposentam felizes, ambos referências em suas áreas de atuação. Compram um bela casa em Miami, onde passam a maior parte do tempo. Ricardo segue o rumo do pai e também se forma na GV. Carolina não se adapta direito ao colégio, sonha ser bailarina e, graças ao fundo de investimento dos pais, realiza seu sonho e muda-se para Praga. Adjane termina seu mestrado em Turismo na PUC e monta uma pousada na Bahia.

Worst Case Scenario (Idem)

Diana entra em crise existencial devido à absoluta ausência de problemas domésticos. Foge com um paciente de vinte e cinco anos, bipolar, viciado em jogo e sexo. Seu Adalberto, advogado, primo do seu Alberto, manda bem na vara da família e Diana leva mais da metade do patrimônio. Cauã passa a achar que não curtiu a vida o suficiente, compra uma BMW conversível para passear com Adjane e Carina, melhores amigas de sua filha Carolina. Esta, por sua vez, se revolta com pai, termina o curso de História na PUC e se candidata a vereadora pelo PSOL. Ricardo muda de nome e endereço: mora no México, integra uma banda de música havaiana e é conhecido como “Humaikê”.

Estudo de Caso B – Luis Felipe Vasconcelos e a família desenvolvimentista

Luiz Felipe era filho de Ana Beatriz Coelho Neves, membro ilustre de uma família de fazendeiros de Ribeirão Preto, e Luis Carlos Vasconcelos, industrial. Aos quinze anos já não suportava mais ouvir falar da falta de uma reforma tributária decente nesse país, de bolsas Louis Vuitton e do LP “Ida e Volta” do príncipe Ronnie Von. Aturou as aulas e os colegas do Santa Cruz até o vestibular. Optou pelo curso de economia da UNICAMP, saiu de casa e procurava visitar os pais somente nas datas imprescindíveis. Com os colegas de república fundou o grupo INICEPAL (Iniciantes da CEPAL. O nome original, CEPAL Júnior, foi vetado e considerado coisa de imperialista). Apaixonou-se perdidamente, depois de uma balada farta de maconha, cerveja barata e músicas do Gil, por Tatiane, morena alta e charmosa, garçonete do “Gordão” de Campinas.

Logo se casaram. Adquiriram boa renda mensal quando Luiz Felipe passou no concurso público do IPEA e Tatiane tornou-se técnica da Justiça do Trabalho de Campinas, graças às aulas caseiras do marido. Mal recebera o segundo holerite, Luiz Felipe decidiu pela compra de uma ampla casa de quatro dormitórios em Sousas, financiada pela Caixa em quarenta e oito anos. Tudo pela qualidade de vida dos três filhos que logo vieram: Lua, Tupã e Aquiles. Para cuidar da casa, trouxe a família de Alcebíades, um dos filhos do velho capataz da fazenda de seu pai.

As crianças todas, filhos de Luiz Felipe e Alcebíades, foram educadas na mesma escola particular, de orientação artística, livre e democrática. À tarde cada criança estudava o instrumento musical de sua escolha. Em seguida, um trabalho coletivo de expressão corporal solta e teatro, sob orientação de um filósofo finlandês radicado em Campinas. A esposa de Alcebíades tinha completa autonomia da gestão da casa. Cuidava de tudo. Não era lá muito eficiente, mas sempre sorria carinhosa e se destacava no tempero caseiro. Vira e mexe comprava demais no supermercado e as coisas estragavam. Alcebíades supostamente controlava as contas numa mesinha e num arquivo daqueles de ferro cinza, tudo no quartinho debaixo da escada. Tatiane, na verdade, nunca entendeu muito bem o que era aquela coisa toda, mas gostava de papear com as amigas do Tribunal do Trabalho e de fazer compras no Shopping Dom Pedro todo fim de semana. Uma vez por ano a família decidia, por sufrágio em dois turnos, a viagem internacional que fariam nas férias.

Melhor Cenário

Luiz Felipe descobre, absolutamente surpreso, que está completamente falido aos quarenta e oito anos. O contador contratado a contragosto para substituir Alcebíades demonstra na ponta do lápis que suas dívidas são equivalentes ao salário somado dos cônjuges, trazido a valor presente, nos próximos quinze anos. Mas neste mesmo dia, numa reunião familiar onde todos debatem os problemas de forma informal e em círculo, ponderam que para tudo se dá jeito. Lua já é professora de Antropologia na universidade, Tupã é violista da OSESP e até o pequeno Aquiles está bem preparado para o concurso iminente da Petrobrás. Os filhos de Alcebíades, também todos encaminhados, se prontificam para o que der e vier. Tatiane sorri com lágrimas nos olhos e propõe uma comemoração em família no “Rei do Bacalhau”, desde que Lua possa pagar a conta no cartão de crédito, com vencimento no dia 30.

Pior Cenário

Luiz Felipe descobre, absolutamente surpreso, que está completamente falido aos quarenta e oito anos. O contador contratado a contragosto para substituir Alcebíades demonstra na ponta do lápis que suas dívidas são equivalentes ao salário somado dos cônjuges, trazido a valor presente, nos próximos quinze anos. Lua se revolta com a situação, afinal não conseguia entender como ninguém se interessava em patrocinar sua exposição de fotografia das tribos de Rondônia. Contava com o dinheiro do pai. Como assim não vai rolar? Tupã ainda não tinha se decidido entre a gaita em lá menor e o oboé quando recebeu a notícia. O pobre Aquiles usava o dinheiro do cursinho de concurso público para comprar fumo com a galera de Vinhedo. Os três filhos crucificam os pais sem dó: a falta de grana veio do financiamento dos filhos do caseiro. Estavam todos morando em São Paulo, trabalhando em bancos e empresas fabricantes de soja transgênica. Tatiane fica com medo de não ter mais dinheiro para freqüentar o Shopping e foge com o dono da lanchonete “Gordão”. Alcebíades pede demissão e vai trabalhar alí com o pessoal do condomínio. Luiz Felipe muda-se para uma quitinete no centro de Campinas onde, no lugar da televisão, guarda com carinho os escritos completos de Marx e Keynes.

7 comentários:

Edison Junior disse...

Primo, lamento por sua crise, mas ela nos proporcionou um texto maravilhoso. Parabéns!

Mr. Lovric disse...

Curti. Tá mandando bem na construção de personagens. E crise precipita mudanças. E sim, no longo prazo, estaremos todos mortos.

Mr. Lovric

Jorge disse...

Iatã, meu caro. Nada como uma boa analogia lulística para demonstrar os sentimentos. Aliás, o atacante paraguaio ficou na seca mesmo.
Excelente texto, mais uma vez.

Georgeumbrasileiro disse...

mais uma vez! :-)

Giana disse...

Iatã, exú socrático, me fez rir até cansar.Aliás eu preciso de uma explicação, para rir com mais pertinência.
Adoro seus textos.

Dea disse...

rs... nada como ler o que vc escreve pra me dar gás. Se não pra constituir família, pelo menos pra estudar.Rs... beijão

Dea disse...

Isso me fez lembrar dos tempos que sonhava com o bandeirantes (ou qualquer colégio elite - fosse a parâmetro educacional que fosse - que me desse bases pra traduzir em cultês as incongruências da vida), das janelas da minha querida escola estadual, esperando a professora de geografia que não vinha há 2 meses.