15.1.11

Brasília, segundas impressões. E as praças

Aqui da minha nova janela se vê uma praça. Quando aluguei esse apartamento tive uma sensação ruim de estar alugando uma coisa brega e cara. Mas em Brasília tudo é muito: a gasolina, o aluguel, os imóveis, o supermercado, o almoço e o descaso. O preço aqui independe do bom gosto. Para um paulistano convicto, filho de um maluco que adorava levar o filho pequeno ao centrão e mostrar ao vivo toda aquela realidade "blade runner" da praça da república, Brasília causa um estranhamento. Ao contrário de São Paulo, Brasília não surgiu da economia, não evoluiu das fazendas de exportação de café. Foi evocada pela política, com muito cimento e nenhuma calçada. Pedestre aqui é barata. Uma das minhas neuroses desenvolvidas após os 34 anos é o medo de ser atropelado e ser obcecado por atravessar somente nas faixas de pedestre. Isso talvez explique o fato de eu ainda não ter visitado o memorial do Juscelino, aqui pertinho de casa. Tenho preguiça de pensar no caminho a seguir a pé e medo de pegar carrapato nos resquícios de cerrado que ainda sobrevivem no Sudoeste, a Barra de Brasília. É isso mesmo, o Sudoeste está pra a Asa Sul assim como Ipanema está para a Barra. E como a Barra Funda está para o Paraíso. E como o meu leitor está para quem implora pelo fim de analogias citadinas.

A praça do meu condomínio ainda é o que o mais me fascina. São Paulo não ajuda a incorporação das praças no imaginário. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim só fariam sentido se fossem o mesmo cheiro de mijo, os mesmos canteiros toscos, o mesmos mendigos e o mesmo correio fechado com portas de aço rolante. A minha praça é a de Lages, em Santa Catarina, onde meu avô caminhava diariamente para encontrar seus pares e comprava o Estadão, que só chegava depois das três da tarde. No dia em que eu passei no vestibular ele desfilou aquele jornal até cansar. Justo, para isso servem as praças. Para encontrar os amigos, os vizinhos, conversar e sorrir. Quando anunciei que me mudaria pra o Sudoeste me alertaram: aí é lugar de madames e seus encontros de cachorrinhos de estimação. Talvez seja mesmo. Mas por enquanto estou gostando de ver a criançada brincando da janela. Fazem pouco barulho, como todo mundo em Brasília. Aqui o silêncio é mais valorizado. Um sonho que em São Paulo não existe mais. E as crianças, de longe, me dão uma paz duvidosa. Ao mesmo tempo que ajudam a esquecer a frustração de não ter tido filhos, também me lembram que criança de longe é uma delícia. Vai criar pra ver o que é bom. E aí me iludo achando que a minha vida é boa como está.

As praças de Brasília transcendem o conceito. Aqui dá pra ver o horizonte e tudo pode virar uma praça. Pena que num lugar que teve quatro governadores em seis meses fica óbvio o descaso. As gramas altas, o descuido com o lixo. Por mais lindo que seja ver o eixo monumental - essa foi a minha impressão ao visitar Brasília nos tempos de faculdade, num ônibus cheio de molecada chapada e curtindo a balada - agora como novo cidadão brasiliense, não posso deixar de ter uma certa raiva do Niemayer e Lúcio Costa. Estou determinado a ler mais sobre o assunto, tentar entender o que pensaram na época. Será que a empolgação do Juscelino com a indústria automobilística foi suficiente para convencê-los de que todo peão de obra teria um fusquinha em 2010? Nos primeiros dois meses por aqui estava sem carro e escrevi para o meu primo Edison: "Andar a pé em Brasília é como dirigir um Galaxy naqueles calçadões do centro de São Paulo. Pelo menos não dá multa. Ainda.".

Pensando bem, talvez eu esteja sendo injusto com os idealizadores de Brasília. Pensar uma cidade ampla, com espaço entre os prédios e as coisas longe umas das outras não é nada mal. Falta transporte público decente. É muito legal vir pra casa e ver um gramado sem fim dos dois lados da avenida. Especialmente pra mim que vivi num bairro onde cada centímetro era disputado a tapa. Já escrevi nesse blog a origem do meu ódio pelo barulho. Sempre houve uma obra por perto da minha casa, um barulho insuportável e um total desrespeito pelo descanso alheio. Mais legal ainda é pegar o carro e ir pra Goaiânia ou para Alto Paraíso, uma das cidades da Chapada dos Veadeiros. O GPS fica branco à esquerda e à direita. Totalmente vazio. Dá uma sensação maravilhosa, ver que o mundo ainda tem lugares vazios, a música da Terra ainda tem pausas.

PS1: Não tinha conseguido escrever nada desde que cheguei aqui. Esta postagem não está lá grande coisa, mas pelo menos saiu. O planalto central está começando a tomar conta de mim. Me lembrou do que a minha irmã me disse. Da importância de criar uma relação afetiva com tudo, com os lugares, com as pessoas, com as ruas, com as histórias. E com as praças, que espero nunca ver dar lugar aos arranha-céus.

PS2: Postagem em homenagem ao tio Bilo, uma das pessoas mais queridas que já conheci e que talvez não leia essa postagem hoje, mas certamente lerá em breve.

8 comentários:

Edison Junior disse...

Que bom vê-lo de volta à blogosfera. E que bom vê-lo um pouco menos amargo com a cidade. Calculo que daqui a uns 100 posts você estará apaixonado por Brasília e transferindo o título de eleitor para aí. Abraços, primo, e não suma por mais tempo.

jkadowaki disse...

Como sempre, um excelente post!
Adorei as analogias citadinas.
Abraço

paulo macari disse...

coloque uma fotos tb.
achei bacana tentar imaginar a praça, o canteiro verde, o mato alto. mas umas fotinhas na sequencia não seriam nada mal. abracao alvi-negro!

Tatiana Russo França disse...

Gosto muito de ler seus escritos, Iatã e também fico feliz em saber que estás bem!

Um beijo!

Fagulhas Volantes disse...

Ah as cidades. as cidades todas tem grandes erros, alguns acertos,,,mas que brasilia ee uma coisa estranha, é....

Fagulhas Volantes disse...

Brasilia, realmente um espaço urbano estranho, resultado da prancheta de dois arquitetos e de um presidente sonhadores, da realidade de um pais doido e complexo...mas ela existe, como Sampa existe, Lages existe, Pirapora existe, e são todas muito estranhas também...

Carla Maciel disse...

Eu como arquiteta não tenho uma opinião muito diferente da sua sobre Brasília... tive que deixar a cidade duas vezes para enfim admitir que a amava!!! Com o tempo vai perceber que as grandes distâncias que vemos nos espaços públicos de Brasília nos levam a nos aproximarmos mais da pessoas... eu sei, é ambíguo mas com o tempo vai entender que é verdade. Os amigos aqui, mesmo aqueles que não trouxemos da infância, são para toda a vida. Você vai ver!!! Grande abraço!
www.arquitrecos.com

Carla Maciel disse...

Ah!! Ia me esquecendo... quando for fazer suas pequenas viagens não deixe de ir a Pirenópolis, uma cidade encantadora e pertinho daqui.