14.4.11

Avatares no poder

Estou me convencendo de que o segredo da felicidade é ficar sem notícias. De todos os tipos, do jornal nacional, do Realengo, da Líbia e do vizinho. Até da família. Invejo tanto hoje os filmes onde um cavaleiro destemido saía pelos Pirineus para levar ao barão a notícia da tragédia. Vinte dias ou mais. Estou com fobia de ligar a televisão de manhã, enquanto passo o café. E de ligar o rádio do carro no caminho ao trabalho. Cada vez mais não quero saber quem morreu, quem foi estuprado, quem roubou, quem chacinou crianças. Prefiro fingir que vivo numa fazenda no meio do nada e o Banco Central é simplesmente a vaca que tenho de ordenhar para prover meu suste­­­­nto. Quem sabe assim tomaríamos menos remédios, teríamos menos dor de cabeça e teríamos mais tempo para apreciar o genuinamente inútil.

E a carência afetiva, que em mim cresce irônica com o tempo, se confunde com a consciência da liberdade, a certeza de que, uma vez superadas as restrições financeiras, praticamente não existem limites, mesmo com as restrições ao crédito impostas pela instituição em que eu mesmo trabalho... O crédito é a mágica de pagar um preço para usufruir hoje o prazer antes possível apenas no futuro. Mesmo custando 11,75% ao ano (mais o spread bancário), parece baratíssimo diante do bombardeio diário de notícias. Quem vai se preocupar com o endividamento diante da possibilidade de ser esfaqueado no meio do supermercado, enquanto se escolhe a marca do macarrão? Ou diante da constatação óbvia de que, ao ver a Dilma reunida com os outros quatro represantantes das economias emergentes, nosso planetinha não vai aguentar o tranco de mais dois bilhões e meio de pessoas comprando Ipads, carros e comendo três hambúrgueres picantes por dia?

Dizem que Deus deu resignação ao meu pobre coração, mas ela não me consola, e acordo ansioso todos os dias, querendo uma coisa que não existe e não sei o que é. Não passo um dia sem viajar que o que eu vejo na verdade não existe, eu sou um software controlado em algum lugar por um outro perdido como eu que também liga seu videogame e foge da própria realidade. Talvez seja um Deus apenas, ou talvez ele empreste o jogo a um amigo do lado e esse outro Deus decida mudar o rumo da missão. Essa troca seria o livre arbítrio. Um pensamento terrível, mas que pelo menos me isenta de responsabilidade pelo noticiário diário.

Morar em Brasília, mesmo que a pessoa seja apenas um motorista de ônibus ou um mendigo, passa a sensação intensa de estar mais próximo do poder. Poder é a capacidade de alterar a realidade de maneira mais intensa, mudar de um jeito que transcende a própria vida. Ter poder é alterar a vida das outras pessoas. Quando visitei o Congresso Nacional, fiquei profundamente decepcionado com o tamanho da sala da câmara dos deputados. Desde pequeno, quando acompanhei pela televisão a vitória de Sarney sobre Maluf, tinha a imagem de uma sala circular colossal, imponente, onde multidões de debatedores decidiam o futuro do país. Quando lá entrei, vi uma saleta de merda, cheirando mofo, com botões com cara de década de setenta nas bancadas. Pensei: "Porra, foi aqui que o Ulysses falou 'Viva a democracia, viva o Brasil!'"?

Talvez seja a mesma sensação da criança que acha um lugar enorme e, depois de lá voltar anos depois, acha normal ou pequeno. Essa foi a sensação que tive ontem, quando acompanhei minha amiga Louise no lançamento da autobiografia do Maílson da Nóbrega, escrita por ela em parceria com o biografado. Quando José Sarney chegou para pegar seu exemplar, fiquei surpreso ao ver aquele velhinho, frágil, sozinho, chegando na livraria Cultura para pedir seu autógrafo. Claro que era ilusório. Mas Sarney é um tremendo dum avatar. Aquela carcaça é frágil, mas ele consegue operar corpos, mentes e todo tipo de movimento para fazer o que quer. Brasília torna mais clara a constatação de que as pessoas que estão no poder são tão medíocres e frágeis quanto qualquer um de nós, provavelmente muito mais... E acho que não é tão difícil assim chegar lá. Concordo com meu amigo Rennó quando diz que os que não gostam de política estão fadados a obedecer aos que gostam. Só por isso não perco a esperança na internet e mantenho este blog. Ao mesmo tempo que me bombardeia de neuroses, acredito que seja um instrumento para se chegar ao poder, e para desmistificar essa caminhada a ele. Mesmo que seja tudo uma ilusão, uma passagem do software de um jogador para outro, que por suas vezes são avatares de outros e assim pode ser que seja o Universo...

7 comentários:

Lucas Iten Teixeira disse...

uma vez vi o Quércia no shopping Market Place a dois dias do 1º turno de 2006. Talvez tenha sido uma impressão similar a do Sarney: qdo vc vê a pessoa q vc considera uma fdp, é estranho ela ser tão pequena à sua frente. Chega até a dar certa pena por alguns míseros segundos.

Jorge disse...

Iatã, meu caro!

Você está vivendo um pouco de "As margens da alegria", de Guimarães Rosa. http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/resumos_comentarios/a/as_margens_da_alegria_conto

Só espero que sua solução nunca seja a do Homer Simpson
http://www.youtube.com/watch?v=1DSaEmY9OL8

Edison Junior disse...

Fantástico seu texto, primo. O que você descreve no primeiro parágrafo eu sinto exatamente o mesmo, letra por letra. Abraços!

Vanessa Góes disse...

Iata, me identifico muito com o seu texto, principalmente com a primeira parte. Ser minimamente politizado e informado traz tanta angústia e desgosto que me pergunto se a alienação completa não seria uma boa estratégia.
Hoje no Estadao o Nelson Motta falou que está com senilidade emocional. Acho que eu nasci senil!
Um beijo grande?
Van

Georgeumbrasileiro disse...

Sempre disse que o senhor tem meu voto.

camilaia disse...

Iatas, adoro seus textos. Muito pontuais, divertidos e intimistas. Mais, please. Beijocas

Camis

Tiago disse...

Excepcional!