13.7.11

Paty nula

(Preclaros leitores, isto é um conto, uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes ou fatos reais, culpem a mente perturbarba deste que vos fala, ninguém mais. Sem mais, o autor)

Não me lembro da primeira vez que conheci Paty. Mas era com "y". Fundamental. Pode ter sido na cantina, no pátio, nos intervalos das aulas, sei lá. Sei que foi. Quando vi ela estava lá, aparecia nas festas, nas fotos, ria das conversas de bêbado. Paty não era feia, nem bonita. Paty era paty. Em São Paulo a mobilidade era limitada pela boa vontade dos pais, pela idade adolescente. Perversão era beber, na falta de mais mulheres aptas a ouvir e curtir Metallica e Megadeath. Talvez os pais destas mulheres as mantivessem presas, presas de nós, das nossas vontades daquela época. Eu faria o mesmo hoje, velho suficiente para lembrar da Paty, se filha tivesse. Imagine deixar minha pequena imaginária nas mãos daqueles com quem eu andava, de jeito nenhum, ou talvez não, talvez eu já estivesse alto com algumas latinhas e elas fossem suficientes para deixar, vai filha, agrade um menino como eu, naquela época não tive quase ninguém. Talvez injusto. Eu era bonitinho lá, tive aventuras com meninas mais interessantes que Paty. Mais sensuais, mais inteiradas, mais mulheres, tinham sorrisos mais cativantes. Para parar com isso, posso dizer que eram mais gostosas. Gostosa vai além da gostosura.

    Vira e mexe cruzava Paty no recreio. Dava um beijinho forte, às vezes um abraço. Ela tinha um cheiro bom, uma mistura de colônia de vó com batom. Quase dava tesão. Era um colégio rigoroso, só os mais aptos sobreviviam. Três recuperações era o máximo permitido. Sabíamos desde o primeiro bimestre quem eram os prováveis degolados. De Paty nunca soube. Sei que se formou. Creio que fez administração com ênfase em alguma coisa. Mas isso não importa agora. Estou ficando velho, cotando planos de previdência, o Facebook está bombando com recordações. Preciso de Paty ali, na escola. Se um dia souber com quem ela se casou, quantos filhos teve, o cargo e o salário, tudo vai por água abaixo. Não, nada disso. Quero ficar estanque nos salões de festa da classe média, cheios de cabeludos que não pegavam ninguém e saíam chapados cantando "from whom the bell tolls!".

    Essas memórias de Paty são no fundo falta de espelho. Quem sou eu, afinal?  Dos amigos antigos a gente costuma fazer agrupamentos, como no messenger. Só que não é por faculdade, escola, firma ou família. É pelos brothers, os brothers que foram para o lado negro da força, as pérolas e os nulos. As pérolas têm uma escala que varia dos que foram brothers por um curto período até os que eram conhecidos dos corredores, não amigos, mas interessantes. E os nulos são os nulos. É mais que zero. São como as barras de ouro do Silvio Santos.  Valem mais do que dinheiro. 

    Encontros de amigos antigos, virtuais ou não, são deliciosos e cruéis. Algumas gostosas continuam gostosas, outras barangaram. Algumas feinhas melhoraram e lamentamos as chances perdidas. Tem espaço até para amores autênticos, livres de julgamentos, não prosperaram. Cheios de antigos namoros e beijos hoje constrangedores na rede. Piadas internas mil. E quem lembrou da Paty? Meu Deus! Hoje basta alguns cliques no curtir e adicionar! Onde está você, Paty, que não respondes, não tuíta, no reply? Morro de curiosidade de saber como estão aqueles cabelos, nem lisos nem crespos, nem presos nem desarrumados. Hoje posso dizer sem medo: queria ter a Paty, sensual e peladinha, mais do que sempre quis a Daniela morena.

    Depois de meio velho, visto quase tudo, as taras ficam mais exigentes. Queremos surpresas, reações inesperadas. Se Daniela morena aparecesse aqui hoje, na minha casa, por um milagre, cheia de recordações e de tesão, eu provavelmente não teria nada a oferecer. Um pinto médio, uma carreira razoavelmente bem sucedida, um apartamento meia-boca, um carro com quatorze prestações a pagar e uma vontade de conhecer Rondônia e tocar clarinete tão grande quanto a te trepar.  Sabe quem eu quero de verdade? A Paty. A Paty nula. De sutiã rosa, calcinha roxa de rendinha, brinquedos eróticos, lubrificantes e sabe-se lá o que mais.

    E o pior. Falta a revelação. (Seria no meio do orgasmo, prolongando-o). Paty nula não veio à Terra para anular. Veio para nos redimir de dois mil e onze anos de fé. Nunca entendi a mensagem de humildade do cristianismo, de um Deus nos enviando seu filho carismático, milagreiro, popular. O meu verdadeiro Deus enviaria a Paty nula. Comum, insignificante, despercebida, sem ambições. Eu, por um milagre, lembraria dela como hoje. E faríamos de tudo, na cama, na mesa, no banho, sem pudores, até a a grande revelação. Eu, Paty nula, sou quem você sempre quis. E você, Paty nula, é o verdadeiro filho de Deus.

6 comentários:

Edison Junior disse...

Delícia de texto! Abraços!

paulo macari disse...

Clap clap clap!

Georgeumbrasileiro disse...

Espetacular, prãfessã!

Carla Maciel disse...

Oi Iatã, que ótimo texto!!! Legal conhecer esta sua faceta de escritor!!! O meu blog não é muito de palavras, mas quando quiser me visitar fique ä vontade!!! Grande abraço!
www.arquitrecos.com

Dani, Lala e Julia disse...

Iatã, continuo sua fã, acabei de mostrar seu texto para o Marcello, demais, viu? bjo

Dani Zagottis disse...

Iatã, continuo sua fã, acabei de mostrar seu texto para o Marcello, muito bom viu?? bjo