12.12.15

Opinião da opinião

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Segundo o Michaelis:

Opinião
sf (lat opinione) 1. Maneira de opinar; modo de ver pessoal; parecer, voto emitido ou manifestado sobre certo assunto. 2 Asserção sem fundamento; presunção. 3 Conceito, reputação. 4 Juízo ou sentimento que se manifesta em assunto sujeito a deliberação. 5 Capricho, teimosia. O. pública, Sociol: juízo coletivo adotado e exteriorizado por um grupo ou, em sociedades diferenciadas e estratificadas, por diversos grupos ou camadas sociais.

             Tenho filosofado muito sobre a opinião. Fui criado  numa família que se opunha à ditadura. Cresci ouvindo Nara cantando: “Podem me prender. Podem me bater. Podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião”. (Com essa bateria e esses músicos, é quase impossível não se apaixonar)


            Há um lado legal em ficar velho. Acho descolado lembrar que fiz vigília ao lado dos meus pais na porta do Hospital das Clínicas para torcer pela recuperação do Tancredo. Lembrar da Fafá de Belém cantando o hino nacional. O papai fazendo campanha para vereador pelo PMDB em 1982, com uns panfletinhos ao lado de figuras legais como Mario Covas, FHC, Flavio Bierrenbach e outros cuja trajetória posterior deixou menos ilustres.

            Na minha infância a opinão começava a bater asas no Brasil. Impossível não achar aquilo muito legal. Havia um movimento lindo pela democracia: Lula, FHC, Osmar Santos, Socrátes, Casagrande, meus ídolos do Corinthians, a democracia Corinthiana, meu pai fanático pela esquerda e pelo Corinthians, como não se apaixonar? Estávamos todos juntos, no mesmo palanque. Eu estive lá uma vez, molequinho, na praça da Sé.

       Ter opinião era exatamente como Nara: chique, descolado, afinado, moderno e revolucionário. Opinar era tocar bateria na bossa nova, quebrar tudo, romper os padrões, deixar a criatividade correr solta.

            Hoje, mais ou menos trinta anos depois, noto que ninguém me prendeu, ninguém me bateu, ninguém nem mesmo me deixou sem comer, mas eu mudei de opinião. Como diria Paulo Francis, conversando com Nelson Motta (e segundo esse último): aqui em Nova Iorque você vai deixar de lado suas últimas ilusões. Minha Nova Iorque foi estudar matemática, economia, história, antropologia, finanças públicas e toda sorte coisas que podem fazer um ser humano se tornar, segundo boa parte dos brasileiros, um “direitista”.

            Pergunto-me se Nara suportaria 2015. Michaelis talvez pudesse complementar a definição acima com coisas do tipo: “comentário no Facebook sobre assunto técnico sobre o qual não se tem nenhum conhecimento”; ou: “agressão anônima em rede social”; ou ainda: “criar meme utilizando imagem de político ou celebridade com cara de mau e frase de efeito em caixa alta”.

            A opinião foi perdendo o charme. Antes era Nara, hoje é Joelma e Ximbinha, na melhor das hipóteses. Coisa chata, medíocre, repetitiva, uma frase desses teclados que algumas pessoas insistem em chamar de forró e me fazem ver Dominguinhos revirar no túmulo como um peão. Eu arrisco dois motivos para explicar esse fenômeno. Agora sim esse texto vai ficar chato. Vou dar minha opinião sobre a opinião!

            O primeiro motivo vem da esquerda. Eu e muitos filhos de pais esquerdistas um dia finalmente percebemos que o fato de a esquerda ter lutado contra a ditadura não faz com que aquela esteja certa. Sem entrar nas atrocidades do governo atual (acho que eu e quase todo mundo não aguenta mais esse assunto), eu resumiria o argumento com a constatação de que a política econômica do Guido Mantega foi, sem tirar nem pôr, a mesma do Delfim Netto durante a ditadura: capitalismo de compadres, intervencionismo e irresponsabilidade fiscal. As consequências também foram as mesmas: inflação descontrolada, recessão, desemprego, enfim, a lista de sempre. Essa e muitas outras coisas fizeram Nara (e Chico, e Veríssimo e a geração dos meus pais) envelhecer,  desafinar, ficar meio chatinha.

            O segundo motivo, obviamente, vem da direita. Ao tentar preencher o vazio deixado pela desilusão com a esquerda, a tendência natural - afinal ninguém está reinventando a roda - foi tentar compreender melhor as teoria liberais, os defensores da economia de mercado, do intervencionismo menor do Estado e da ampliação das liberdades individuais. Nossa discussão política e econômica é exatamente a mesma que a Europa, os EUA e qualquer democracia mais antiga já teve dezenas de vezes. Aqui surge um novo problema para a opinião: como expressar e defender esse tipo de ideia no Brasil sem histeria.

            Provavelmente poucas coisas ilustram melhor o que eu chamei de histeria do que o Facebook durante o segundo turno das eleições de 2014. Aquilo foi realmente um horror. Ironicamente, em meio àquela Ópera Bufa, surgiu uma Nara, afinada, cantando baixinho. Tive uma epifania ao ler uma postagem de um amigo de faculdade. Amigo que não vejo há tempos, que provavelmente discorda da maioria das minhas opiniões. Ele escreveu: “Segue um texto, sereno e honesto, sobre os últimos anos da história política do país”. Abri o link e discordei de 80% do que estava escrito. Mas, de fato, era um texto sereno e honesto. Nesse dia me perguntei se realmente é tão difícil. Lembrei dos amigos que excluí da convivência pessoal e virtual.

            Separei dois vídeos para ilustrar essa questão. O primeiro mostra como os “liberais  ilustres” se apresentam no Brasil. Às vezes não basta ser assinante da Veja. Surge também a necessidade de gritar, chamar pro pau e usar uma farda.  


Felizmente, nem todos os liberais são tão deselegantes. Já escrevi várias vezes nesse Blog o quanto eu sou alucinado pela banda Rush (alguns leitores do blog me xingam quando entro nesse assunto, mas eu não resisto. Tentarei provar a pertinência adiante). Minha paixão pelo Rush não deriva apenas da qualidade da música, mas do caráter dos três caras, dos valores, da postura de vida. Não por acaso são defensores de uma ideologia liberal, individualista, etc.. O baterista, Neil Peart, é também uma espécie de mentor intelectual da banda. Escreveu a grande maioria das letras sozinho. Nos primeiros discos, no final dos anos 70 e início dos anos 80, uma das suas principais referências intelectuais foi a filósofa russa, radicada nos EUA, Ayn Rand.

 (Se houver algum leitor do blog que também goste de Rush, as referências mais diretas à filósofa são o lado A inteiro do álbum 2112 e a música “Anthem” - nome de livro homônimo de Ayn Rand, que eu estou lendo agora - do álbum Fly by Night).

Fucei diversos vídeos muito interessantes de Ayn Rand no YouTube e escolhi esse, abaixo, para tentar fazer um contraponto à histeria tanto dos Reinaldos Azevedos quanto da velha guarda esquerdista brasileira. Acho que faz justiça à proposta do meu amigo do Facebook nos quesitos serenidade e honestidade.
                        

            Nara, querida, opinião no Brasil de hoje é Carcará: pega, mata e come.  Eu e a maioria das pessoas que conheço mudariam a letra da sua música consagrada. Hoje todo mundo cantaria algo assim: “Podem me prender. Podem me bater. Podem até deixar-me sem comer, que eu prefiro ir pro bar, tomar cerveja e ver futebol, ficar o dia todo repassando bobagem no WhatsApp, do que discutir minha opinião com você”.

Um comentário:

Edison Junior disse...

Concordo com a sua opinião. Quanto à Nara... adoro a Nara e me lembro até hoje a impressão forte que me causavam seus joelhos. Ah, sim, e a sua doce voz.

O refrão "podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião" teve um forte apelo contra a ditadura, porém, acho que o resto da música é de um conformismo sem par, começando por "daqui do morro eu não saio não" e daí pra frente.

Abração!

Junior