23.1.16

Sonho de um videogame à brasileira

            Desde muito pequeno fui louco por videogames. Nos anos oitenta, cheguei a sonhar, mais de uma vez, com a chegada do Atari. Sonhava com um Natal nevado, norte-americano, um pacote perfeito e laceado com fino papel de presente. Não recebi assim. Papai era um cara sincero, pragmático e avesso às promoções de Casas Bahia e chantagens emocionais. Nunca ganhei presente nas datas certas, sempre ganhei quando o velho Lessa tinha dinheiro ou, provavelmente, quando ele simplesmente dava um jeito.

            Sei que de arranjo em arranjo tive tudo o que quis. Nunca fomos ricaços, mas não posso reclamar de nada. O Atari um dia chegou, chegou também a bicicleta Caloi Cross, chegaram os computadores de Nerd dos anos 90 (o TK-95, o Hotbit), papai pode descansar tranquilo em bom lugar, um querido, sempre se esfalfou para dar tudo o que esse mimado cronista poderia querer.
           
            Ser louco por videogames sempre foi algo a ser escondido. Ser Nerd era meio bizarro. O “Big Bang Theory” estava longe de existir. Os anos 80 e 90 foram difíceis para nós, podem acreditar. Registradas essas reminiscências pequeno burguesas, peço licença para falar sobre o impacto dessa ignorância sobre a economia brasileira.

            A economia brasileira continua, em pleno 2016, baseada na produção e exportação de produtos agrícolas e industriais de qualidade duvidosa, dependentes de um câmbio e taxas Selic favoráveis. Não vou me estender no assunto por absoluta falta de conhecimento sobre o tema. Mas, só como exercício de pensamento, eu proponho: quantos videogames nós produzimos nos últimos anos? Quantos filmes? (Ah, desculpem! “Os Dez Mandamentos” deve bombar esse ano!) Quantos aplicativos de celular? Quantas soluções de eficiência empresarial?

            Durante as últimas quatro eleições, quando eu tentava discutir com alguém que vota no PT, a discussão sempre acabava (quando travada com pessoas honestas) num impasse do tipo: “Mas os outros partidos também são corruptos, pelo menos o PT garantiu a diminuição da pobreza”. O meu argumento, sempre esquecido ao vento era: a corrupção é, de longe, o menor dos problemas do PT. O problema mais sério é não enxergar o horizonte, saber que  exportar videogames, por exemplo, seria mais interessante do que exportar soja.  Esse é um entre 18.764 argumentos que eu poderia dar na mesma linha.

            Lá pelo anos de 2004 e 2005, tive a oportunidade de trabalhar com meu amigo Ricardo Mendes numa consultoria de assuntos internacionais. Nesse período, fizemos alguns trabalhos sobre o setor de serviços. Se pararmos pra pensar sobre a importância do setor de serviços na economia mundial, em comparação à importância da indústria e da agricultura, não é necessário muito esforço para perceber que ele deveria ter sido prioritário.

            Minha mãe e minha irmã sempre criticaram minha devoção ao videogame com aqueles argumentos típicos de quem jamais encostou num joystick. Perda de tempo, coisa inútil, como uma pessoa inteligente como você pode passar tanto tempo dedicado a isso? Eu respondi defensivamente com um desafio: “Se vocês me explicarem qual é a diferença, em termos de perda de tempo e utilidade, entre passar três horas jogando videogame e passar três horas vendo novela, vendo um filme no cinema, ou batendo papo no bar com os amigos, eu desligo o PlayStation agora”. Elas nunca me responderam, mas eu vou ser chato a ponto de tentar.

            Deve ter sido lá por 2011. A revista “Economist” fez uma matéria especial, de mais de dez páginas, sobre a indústria de videogames no mundo. Vários fatos interessantes. Naquele ano, os jogos de maior sucesso haviam gerado mais receita, de longe, do que os mais bem sucedidos filmes de Hollywood. Também provaram estatisticamente a bobagem do senso comum de achar que videogame é coisa de criança (provavelmente estúpida) do sexo masculino. A quantidade de mulheres consumidoras de games era enorme, assim como os homens entre 30 e 40 anos como eu, muito precisamente apelidados na matéria de “The Atari Generation”.

            Outro equívoco típico de quem não vive nesse mundinho é achar que os jogos de hoje são limitados e baseados na velocidade de reação, dos reflexos, como antigamente. As mães do mundo continuam achando que estamos desviando a esmo o avião do River Raid ou pulando alucinadamente como Mário Bros no tempo do 2D. Não é de hoje que os jogos são muito mais complexos e interessantes. Envolvem um nível alto de raciocínio e pensamento estratégico. Não existe mais a ideia de passar de fase como antigamente. Os jogos são um mundo virtual. Hoje passar de fase é um mundo aberto de possibilidades, um desafio permanente para a criatividade.

            Terminar um jogo hoje também é bastante diferente. Não se resume ao Mário Bros pulando em cima do dragão e salvando a princesinha loira. Além de alguns meses de dedicação e esforço, o final de um jogo de videogame quase sempre vem acompanhado de alguns minutos, muitos minutos na verdade, de créditos.  Diretores de arte, desenhistas, técnicos de voz, diversos tipos de programadores, atores, músicos, enfim, uma infinidade de profissionais cujos nomes de profissão o Brasil provavelmente nem sabe classificar na RAIS.

Quem é alucinado por games como eu, vê esses créditos e pensa: “Vocês são foda. Eu faço questão de comprar o jogo original para garantir que vocês continuem empregados”. Infelizmente estão todos empregados no Canadá, na Índia, na China, no Japão, na Nova Zelândia. Mas se você faz parte da maioria da população que não está nem aí pra videogames, pelo menos tente pensar que, se houvesse uma indústria como essa no Brasil, teríamos menos gente cortando cana, desmatando floresta e plantando soja. Ou, mais provável, não teríamos 1.500.000 pessoas a menos com carteira assinada em 2016.

“O Itamaraty apostou numa política de informática absolutamente estúpida. O Brasil é contra a inclusão de serviços no GATS, ignorando que, fatalmente, os serviços se equipararão aos bens comerciais e talvez os superarão como percentagem do comércio internacional, de modo que a gente tem é que ingressar no disciplinamento dessas atividades como parte do contexto internacional. Se não, os serviços acabam sendo regulamentados sem nós. Então, fizemos todas as apostas erradas”. 

Roberto Campos - Programa Roda Viva - TV Cultura - 1991 (25 anos antes desta crônica)

           

Um comentário:

Edison Junior disse...

Não sou dos aficionados em vídeo games, embora já tenha arriscado algumas vezes, sempre com grande insucesso. Bom, talvez daí venha o meu desinteresse. Somos mais ou menos da mesma geração, só que nasci uns 10 anos antes, ou seja, quando começaram a aparecer esses joguinhos para mim era apenas uma curiosidade, já tinha outros interesses. Mesmo sendo um pouco nerd também.

Claro, seu post não é sobre vídeo games (Lua, Lua, Lua, Lua, meu canto não tem nada ver com a Lua), e sua colocação é perfeita. Apesar de entender nosso potencial econômico na agricultura e construção civil - fundamentais para gerar empregos, inclusive o meu - nós realmente descuidamos da tecnologia. Poderíamos estar muito mais adiantados e independentes.

Parte da culpa é a malfadada reserva de mercado que imperou nos anos 80, mas isso já faz tanto tempo que já dava para ter revertido o jogo. Nossos esparsos destaques nessa área ou atuam no exterior ou são apenas exceções.

Uma pena, potencial criativo para isso nós temos.