31.8.16

Impedimentos

Escolho este título porque odeio usar palavras inglesas com similar perfeito na nossa inculta e bela. Herdei esse complexo de Policarpo Quaresma do meu pai e pretendo levá-lo ao túmulo. Antes de ganhar qualquer rótulo de ultranacionalista, xenófobo, ou qualquer direitismo similar, prefiro me prevenir. O primeiro título que me veio à mente foi: “O que aprendi com o impeachment de Collor e Dilma”. Insisti em não utilizá-lo só pra reforçar meu Policarpismo Quaresmista. Afinal de contas, eu me chamo Iatã, nome Tupi-guarani, escolhido pelo meu pai. Ele sabia das coisas e tinha orgulho de mim, pelo menos até eu me tornar um neoliberal. Infelizmente, ele não está mais aqui para tirarmos isso a limpo.

Lição número 1 – Ouça os mais velhos

Lá pelo início dos anos 90, eu era petista roxo, me achava um profundo intelectual, tinha soluções de botequim para todos, absolutamente todos os problemas nacionais. Certo dia, nessa época, eu estava no carro com uma pessoa muito querida e muito mais velha. Essa pessoa me disse: “Iatã, eu admiro suas boas intenções. Mas tenha em perspectiva a história do seu país. Eu já vi essas eleições diversas vezes. É sempre a mesma coisa. Os anos, as décadas passam, é sempre a mesma coisa”.
Meu pensamento no dia foi: “Caramba, como as pessoas velhas ficam conservadoras”. Salvo engano, naquele ano os candidatos à prefeitura de São Paulo eram Erundina, Serra e Maluf. Hoje, quase vinte e cinco anos depois, eu preciso dizer quem são os candidatos à prefeitura de São Paulo? Vamos julgar juntos meu interlocutor. É uma questão de conservadorismo ou é uma questão de perceber o óbvio ululante?

Lição número 2 – Não corte relações com amigos ou parente por causa de política.

Há quem pense como eu. Sim, o PT testou nossa paciência ao limite. Mas, convenhamos, não fomos nós (eu e a meia dúzia de gatos pingados que leem meus textos) os mais prejudicados. Nós sobreviveremos. Muito provavelmente sobreviveremos tomando uma cervejinha, comendo uma picanha e xingando muito esses comunas no Twitter.
Há quem não pense como eu. Há artistas que me encantaram, há professores que me formaram, há parentes que me cuidaram, há muita gente que eu amo e me esforço para não mandar à merda todos os dias.
A animosidade surrealista surgida nos últimos anos no Brasil só poderia ser concluída de uma forma: aquela foto patética de Dilma, Aécio e Lewandowski gargalhando no plenário do Senado. Um resumo da ópera perfeito. Somos todos perfeitos idiotas. Ou melhor, seremos sempre perfeitos idiotas enquanto não entendermos o que significa a busca pelo poder.
A melhor coisa que fiz nos últimos tempos foi pedir desculpas aos amigos excluídos do Facebook nos últimos anos. Resgatei uma paz perdida. Voltei à racionalidade. Política e racionalidade não se dão muito bem.

Lição número 3 – Estude Economia

Um dos maiores arrependimentos da minha vida foi ter escolhido, na época do vestibular, aos dezessete anos, o curso de Administração. Deveria ter feito Economia. Vou além, Economia deveria ser matéria do ensino básico. Qualquer cidadão deveria ter o direito de entender claramente para onde vão seus impostos, quem paga quanto, o orçamento público. Isso é tão importante quando saber ler e escrever, quanto ter saneamento e saúde pública. Todo mundo deveria saber exatamente como funciona a inflação, as taxas de juro, as opções de poupança e investimento. Esse assunto, da “Educação Financeira”, posso dizer porque trabalho no Banco Central, só surgiu há pouquíssimos anos.
Estudar Economia me fez perceber claramente o sentido da palavra “hipocrisia” na política. Estudar Economia não apenas nos separa dos ignorantes, por óbvio, mas principalmente nos separa dos hipócritas. Há poucas bênçãos maiores no mundo.

Lição número 4 –Lembre-se do Cosmos

Meu pai, professor de inglês, francês e espanhol durante décadas, tinha uma frase muito engraçada: “Life is too short to learn German”. Quando me lembro dele hoje, acho a vida muita curta para entender a política tupiniquim, as razões que levaram alguns norte-americanos a escolher o Trump como candidato, as razões que levaram os ingleses a dar uma botinada na União Europeia, as razões que levam alguns jovens a se explodir num ônibus, enfim, temos pouco tempo para entender muitas coisas.
Termino essas tortuosas com uma conclusão ainda mais triste. Uma conclusão quarentesca. Não esperem muita coisa, minha gente. Eu me consolo hoje com certa resignação. Temer escolheu uma equipe econômica de primeira linha. O resto, eu deixo para o resto. Sou um economista pragmático. Não tenho mais sonhos adolescentes nem perspectivas de um líder heroico na presidência da República.
Dizem que foi Keynes o autor da frase: “No longo prazo estaremos todos mortos”. Não poderia discordar mais dele na Economia, mas, na vida, talvez faça algum sentido. Não estou mais disposto a perder amigos pela política. Daqui a quarenta anos, eu estarei morto e, com certeza, não passarei sem tomar uma cerveja e dar um abraço neles todos por causa de Dilma e Aécio.

Um comentário:

Edison Junior disse...

Muito bom, primo!