8.4.09

Barulhos e neuroses de um paulistano

Algum tempo atrás, parando para ler o blog do Eric Lovric (link ao lado), me deparei com essa animação genial do Popeye.  Era meu desenho animado favorito na infância. Minha mãe conta que quando eu estava no "Jardim" (sei lá como chama isso hoje), dizia a todos os coleguinhas que eu era o Popeye. O canastrão ainda jurava que quando comia espinafre ganhava força descomunal.



O problema foi que um belo dia um coleguinha, provavelmente bem intencionado (acredito que o espírito de porco só aflora na adolescência - antes disso a crueldade do ser humano criança é meramente o exercício da sinceridade), pediu para a mãe colocar na lancheira uma trouxinha de espinafre cozido. "É pro meu amigo lá da escola. Ele diz que é o Popeye e vai ficar forte depois de comer o espinafre!". Desgraçado esse moleque. Eu era neurótico desde criança. Não comia nada além de arroz, feijão, bife e batata frita. Comi minha primeira pizza quando tinha, no mínimo, uns quatorze anos. Legumes e salada? Uns vinte e três, chutando baixo.

De acordo com o relato da professora do "Jardim" à minha mãe, na hora em que o fedelho sacou o espinafre da lancheira, todo engordurado num guardanapo azul claro (tenho o flash do guardanapo azul, da gosma verde e do sorriso do menino até hoje na memória), no meio de uma rodinha em que estavam presentes no mínimo um terço da classe, eu fiquei branco. Parei, respirei fundo, saquei a minha lancheira, peguei meia dúzia de bolachas MARIA (aquelas que vendiam num pacote amarelo da Tostines nos anos 80) e falei: "Eu não preciso. Estas bolachas que minha mãe me deu já contêm espinafre!".

Mas eu não estava planejando escrever sobre Popeye e espinafre. Queria falar sobre barulho. Aliás, quem vir o vídeo, note que no começo o pai do Popeye diz que está de ressaca. O Popeye começa a quebrar tudo na vizinhança, afinal seu pobre pai precisava descansar. Uma pena que isso não aconteça na vida real.  Sinto minha vida na rua Afonso de Freiras, no Paraíso, como uma repetição incessante desse desenho. Não me lembro de nenhum período, desde a minha tenra infância, em que não houvesse uma obra em construção no nosso quarteirão.

Obra no quarteirão é uma delícia. Primeiro começa o bate-estaca. É praticamente um terremoto induzido. Um objeto fálico de 20 metros de metal bombando a superfície terrestre. Passado esse primeiro momento, começa a tortura dos ruídos esparsos e sem sentido. Por exemplo: sempre tem um peão, com uma marreta de meio metro na mão, batendo numa viga de metal gigantesca, com toda força. Eu sempre me perguntei, num dos milhares de tardes em que tentava tirar um cochilo à tarde depois da escola, já apelando à intervenção divina: "Senhor... eu sei que não sou engenheiro. Mas porque esse cidadão está esmurrando a viga com essa marreta? Eu estou aprendendo operações com números complexos na aula de álgebra e estou entendendo alguma coisa. Por que não consigo entender isso?"

 As interrupções do meu sono vespertino despertavam em mim instintos assassinos. Estudei num dos colégios "fortes" de São Paulo, o Bandeirantes. Costumávamos varar a noite estudando na semana de provas e depois dormir depois do almoço. Super saudável, diga-se de passagem. Toda vez que eu acordava com um barulho insuportável de obra, eu sonhava com aquela cena do "Rambo II", em que o Stallone saca um arco e flecha com ponta de bomba supersônica, mira no vietcong e ele BUM! - simplesmente sumia da superfície terrestre. Felizmente, o máximo que eu concretizei, em dias de muita revolta, foi uma série de disparos de papéis higiênicos molhados nos vendedores de pamonhas de Piracicaba que passavam na Afonso de Freitas.

Acho meio melancólico o fato de ter me tornado uma pessoa pior, em certo sentido, não devido ao barulho em si, mas pela absoluta impotência que todo paulistano tem pra lutar contra o barulho insano em que a gente vive. Uma revolta acumulada vai tomando conta, a ponto de despertar atitudes escrotas. Nos últimos dois anos e meio morei no interior de São Paulo, em Jaguariúna. As pessoas paulistanas me perguntavam: “Nossa, mas você está gostando? O que tem pra fazer lá?”. Eu respondia: “Nada. Mas tem silêncio. Dá pra ouvir os grilos de noite”. Quando eu voltava pra São Paulo, não buzinava mais no trânsito, não fechava todo mundo e não xingava os velhinhos de chapéu que me faziam esperar mais um farol vermelho. Meu Popeye interno serenou.