12.9.16

We are the world


Meu oxigênio atual é minha varanda. Depois de quase uma década solteiro, encontrei um amor e com ele vieram os desafios da convivência. Para dizer a verdade, seria injusto com minha quase-esposa (vamos nos casar daqui a quarenta dias) chamar de “desafios”. Depois de quebrado meu casulo de ogro, ela amoleceu meu coração e tudo ficou mais fácil. Mesmo assim, todo cronista precisa de um casulo. Um cronista fumante precisa de um casulo a céu aberto, isolado, incapaz de incomodar as bronquites e broncas da patroa.

Quando venho aqui pro casulo, fico caçando assunto pra escrever. Vejo se alguém falou alguma coisa interessante no zap zap, no feicibuqui, folheio uns livros, enfim, fico por aí. Outro dia estava ouvindo e vendo músicas dos anos oitenta no iútubi, hábito regular e salutar. Caí na asneira de clicar no videoclipe (esse termo entrega a idade) do “We are the World”. Pra que. Fiquei umas duas semanas dormindo e acordando com essa música na cabeça. Nunca uma melodia ficou impregnada tanto tempo no meu pensamento. Cada dia eu acordava com um verso. Um dia era o Bruce Springsteen, outro dia era o Lionel Richie, outro dia era o Bob Dylan, inferno total. 


 Tanto a música martelou e fui compelido a tentar racionalizar o fenômeno.  Uma espécie de autoanálise em meio ao estresse urbano. Não demorou muito para perceber a quantidade de referências. Minha infância inteira, cheia de traumas e delícias, parecia voltar como um vinil girando reverso. Michael Jackson, vestido de preto com detalhes em dourado, me lembrou do Thriller, o primeiro álbum da minha vida. Não lembro se pedi de presente, de onde surgiu, só lembro de colocá-lo pra tocar na minha vitrola da turma da Mônica e da minha irmã tirando sarro de mim porque eu cantava “Piret, Piret”, ao invés de “Beat it, Beat it”.    



 


A lista é longa. O “yê yê yê” agudo de Cindy Lauper me teleportava ao inesquecível Goonies, de tantas sessões da tarde. O swing do Stevie Wonder e do Ray Charles me lembrava a piada politicamente incorreta e (obviamente engraçada) dizendo que a gravação da música só foi possível porque um balançava pra frente e pra trás e o outro de um lado para o outro. Outra vozes me remetiam ao “Hit Parades” da minha mãe e sua vitrola, como Paul Simon e Willie Nelson: “When you’re weary... Feeling small". São vozes de saudade dos bailinhos. Assombrações do velho Paraíso soprando de longe, mesmo eu aqui na minha varandinha distante no cerrado do Noroeste brasiliense. 

 

O videoclipe me lembrou outra coisa interessante. Na minha última aula de espanhol, meu professor Eduardo comentou como sua percepção em relação ao cantor Julio Iglesias mudou ao longo dos anos. Comentei minha experiência bastante similar de brasileiro em relação ao Rei Roberto Carlos. Concluímos juntos, após boas risadas e uma ótima conversação para melhorar meu espanhol, que os velhos acabam ficando mais tolerantes com as supostas breguices e mais atentos ao talento dos artistas. “We are the world” pode até ser meio piegas. Mas as vozes dos melhores cantores americanos, arranjados por Quincy Jones... Não tem pra ninguém.

Sentado num divã imaginário, ainda acho que o “We are the world” está mesmo perseguindo meu neoliberalismo. Onde está aquele adolescente preocupado com os pobres, mobilizado pela fome na África? Aquele cara que fazia trabalho voluntário? Meu altruísmo, meu “we are the world”, se perdeu em algum lugar entre a eleição do Lula em 2002 e o dia em que, finalmente, encontrei minha estabilidade financeira.

4.9.16

Corinthians x Palmeiras


Qualquer debate impossível no Brasil será sempre definido como Fla x Flu. O título desta crônica é uma sacanagem, uma luta inglória de paulistano tentando  mudar o céu de azul para amarelo. O céu será sempre azul. Exceto em Londres ou na Islândia, será sempre azul . É o famoso óbvio ululante. Essa provocação é mera saudade de um tempo remoto, quando o discurso  de direita era de Nelson Rodrigues, não do Kim Kataguiri.

            Qualquer paulistano convicto, militante e honesto, há de convir que o Rio é o Rio. É quase um postulado. Clássico é clássico, e coisa e tal.  Nenhuma outra cidade do mundo faria uma olimpíada bem sucedida em meio à maior crise econômica da história da República, assim como ninguém jamais fará um Flamengo x Botafogo como Garrincha.

            Nelson Rodrigues entrou na minha vida lá pelos começos dos anos 2000. Fui abençoado por um desemprego temporário, meu primeiro desemprego.  Foi a primeira vez que li peças de teatro inteiras num livro. Junto com elas, li a biografia do Ruy Castro sobre ele. Apesar de neolibreal, devo confessar que os períodos mais felizes e mais produtivos intelectualmente da minha vida foram os que estive desempregado. Vou tentar ignorar o último período para não correr o risco de entrar em contradição.

            Minha relação com a arte é estranha. Ela pula de obsessão em obsessão. Tenho as minhas “fases”. Não consigo me desinteressar por um artista antes de esgotar ao limite minha pesquisa e convivência com ele. Tive minha fase Mozart, minha fase Woody Allen, minha fase Gilberto Gil, minha fase Dominguinhos, minha fase Stanley Kubrick, mais recentemente minha fase Rush e bandas de rock da adolescência. Atualmente estou na fase The Who e Conan Doyle/Sherlock Holmes.

            Tergiversei. Voltando ao anjo pornográfico, naqueles meses de desemprego, nos “earlies 2000s”, aprendi com Nelson o verdadeiro significado da palavra “hipocrisia”. O verdadeiro intento daquela putaria toda que ele escrevia não era chocar a sociedade carioca, era jogar na cara dela, com toda força de um punho tradicional e conservador, a falsidade ululante das relações sociais.

            Infelizmente me falta conteúdo para escrever mais sobre essa época do Brasil, que acho interessantíssima. Mas quero aproveitar o gancho da hipocrisia e voltar a comentar nosso triste 2016. A discussão política recente pode ser resumida com o termo Fla x Flu. Nelson Rodrigues mal conseguia enxergar, mas fazia questão de ir ao Maracanã sofrer alucinado pelo Fluminense. Depois voltava à redação e escrevia crônicas geniais e apaixonadas. Um Fla  x Flu não tem sequer sombra de racionalidade. Não há espaço para honestidade intelectual na marcação de um pênalti. Tudo sempre estará sujeito à interpretação e ao poder político dos dirigentes.

            Reconheço o problema desta analogia quando pensamos na política. O Fla x Flu de verdade gera no máximo uma batalha pela Taça das Bolinhas. Na vida real a coisa fica bem mais feia, envolve leis, interpretações, juristas, congressistas, acordões, conchavos, quebradeiras, PMs enlouquecidos e tudo o mais. Entretando, acho a analogia válida com respeito à irracionalidade. O PT grita: “O céu é amarelo!”, a oposição grita: “O céu é verde!” e quem grita mais alto ganha. Restam meia dúzia de idiotas levantando a mão e dizendo: “Mas o céu, até ontem, não era azul?”.

            No fundo, no frigir dos ovos (ou, como diria meu amigo, “no fingir dos ovos”), estamos discutindo economia de mercado versus socialismo em pleno 2016. Custa crer no quanto é patético. Se os simpatizantes do PT e de Dilma ainda defendessem o Socialismo clássico com alguma coerência,  como faz Luiza Erundina e como fazia Plínio de Arruda Sampaio, com dignidade e um mínimo de repúdio à corrupção, o debate ainda faria algum sentido. Mas para eles basta martelar eternamente que o céu é amarelo.

            Do outro lado não há céu. Nem azul, nem nada. Eu só consigo pensar agora numa luneta. Nossa solução, se houver, deve estar anos, anos-luz de distância.  


31.8.16

Impedimentos

Escolho este título porque odeio usar palavras inglesas com similar perfeito na nossa inculta e bela. Herdei esse complexo de Policarpo Quaresma do meu pai e pretendo levá-lo ao túmulo. Antes de ganhar qualquer rótulo de ultranacionalista, xenófobo, ou qualquer direitismo similar, prefiro me prevenir. O primeiro título que me veio à mente foi: “O que aprendi com o impeachment de Collor e Dilma”. Insisti em não utilizá-lo só pra reforçar meu Policarpismo Quaresmista. Afinal de contas, eu me chamo Iatã, nome Tupi-guarani, escolhido pelo meu pai. Ele sabia das coisas e tinha orgulho de mim, pelo menos até eu me tornar um neoliberal. Infelizmente, ele não está mais aqui para tirarmos isso a limpo.

Lição número 1 – Ouça os mais velhos

Lá pelo início dos anos 90, eu era petista roxo, me achava um profundo intelectual, tinha soluções de botequim para todos, absolutamente todos os problemas nacionais. Certo dia, nessa época, eu estava no carro com uma pessoa muito querida e muito mais velha. Essa pessoa me disse: “Iatã, eu admiro suas boas intenções. Mas tenha em perspectiva a história do seu país. Eu já vi essas eleições diversas vezes. É sempre a mesma coisa. Os anos, as décadas passam, é sempre a mesma coisa”.
Meu pensamento no dia foi: “Caramba, como as pessoas velhas ficam conservadoras”. Salvo engano, naquele ano os candidatos à prefeitura de São Paulo eram Erundina, Serra e Maluf. Hoje, quase vinte e cinco anos depois, eu preciso dizer quem são os candidatos à prefeitura de São Paulo? Vamos julgar juntos meu interlocutor. É uma questão de conservadorismo ou é uma questão de perceber o óbvio ululante?

Lição número 2 – Não corte relações com amigos ou parente por causa de política.

Há quem pense como eu. Sim, o PT testou nossa paciência ao limite. Mas, convenhamos, não fomos nós (eu e a meia dúzia de gatos pingados que leem meus textos) os mais prejudicados. Nós sobreviveremos. Muito provavelmente sobreviveremos tomando uma cervejinha, comendo uma picanha e xingando muito esses comunas no Twitter.
Há quem não pense como eu. Há artistas que me encantaram, há professores que me formaram, há parentes que me cuidaram, há muita gente que eu amo e me esforço para não mandar à merda todos os dias.
A animosidade surrealista surgida nos últimos anos no Brasil só poderia ser concluída de uma forma: aquela foto patética de Dilma, Aécio e Lewandowski gargalhando no plenário do Senado. Um resumo da ópera perfeito. Somos todos perfeitos idiotas. Ou melhor, seremos sempre perfeitos idiotas enquanto não entendermos o que significa a busca pelo poder.
A melhor coisa que fiz nos últimos tempos foi pedir desculpas aos amigos excluídos do Facebook nos últimos anos. Resgatei uma paz perdida. Voltei à racionalidade. Política e racionalidade não se dão muito bem.

Lição número 3 – Estude Economia

Um dos maiores arrependimentos da minha vida foi ter escolhido, na época do vestibular, aos dezessete anos, o curso de Administração. Deveria ter feito Economia. Vou além, Economia deveria ser matéria do ensino básico. Qualquer cidadão deveria ter o direito de entender claramente para onde vão seus impostos, quem paga quanto, o orçamento público. Isso é tão importante quando saber ler e escrever, quanto ter saneamento e saúde pública. Todo mundo deveria saber exatamente como funciona a inflação, as taxas de juro, as opções de poupança e investimento. Esse assunto, da “Educação Financeira”, posso dizer porque trabalho no Banco Central, só surgiu há pouquíssimos anos.
Estudar Economia me fez perceber claramente o sentido da palavra “hipocrisia” na política. Estudar Economia não apenas nos separa dos ignorantes, por óbvio, mas principalmente nos separa dos hipócritas. Há poucas bênçãos maiores no mundo.

Lição número 4 –Lembre-se do Cosmos

Meu pai, professor de inglês, francês e espanhol durante décadas, tinha uma frase muito engraçada: “Life is too short to learn German”. Quando me lembro dele hoje, acho a vida muita curta para entender a política tupiniquim, as razões que levaram alguns norte-americanos a escolher o Trump como candidato, as razões que levaram os ingleses a dar uma botinada na União Europeia, as razões que levam alguns jovens a se explodir num ônibus, enfim, temos pouco tempo para entender muitas coisas.
Termino essas tortuosas com uma conclusão ainda mais triste. Uma conclusão quarentesca. Não esperem muita coisa, minha gente. Eu me consolo hoje com certa resignação. Temer escolheu uma equipe econômica de primeira linha. O resto, eu deixo para o resto. Sou um economista pragmático. Não tenho mais sonhos adolescentes nem perspectivas de um líder heroico na presidência da República.
Dizem que foi Keynes o autor da frase: “No longo prazo estaremos todos mortos”. Não poderia discordar mais dele na Economia, mas, na vida, talvez faça algum sentido. Não estou mais disposto a perder amigos pela política. Daqui a quarenta anos, eu estarei morto e, com certeza, não passarei sem tomar uma cerveja e dar um abraço neles todos por causa de Dilma e Aécio.

1.7.16

O valor da mediocridade


        Teoricamente, posso me dizer um cientista político. Sou bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na prática, sempre me senti como alvo da chacota do meu amigo Eduardo Bodra, vulgo Bobó, um cara sempre pronto a lembrar: eu era um estudante de Relações Espaciais de um curso técnico da zona oeste.

            Bobó era meu amigo da rua Afonso de Freitas, no Paraíso, colega do Bandeirantes. Entramos juntos na FEA-USP, ele em Economia, eu em Administração, ambos lá pelos dezoito anos. Apesar de caminharmos juntos nas primeiras alucinações universitárias – formamos uma banda de forró chamada Acauã – ele entendeu mais rápido o que era a vida, foi trabalhar para ganhar dinheiro e logo logo ganhou. Já eu fiquei perdido naquela coisa da arte, da esquerda, do sentido da vida, dos sonhos de 1968, investi mais alguns anos na música, foquei nos meus estudos de Relações Espaciais da PUC-SP, enfim, deixei a Administração e a realidade a ver navios.

            Mas o Bobó era apenas um polo do espectro.  No outro pólo estava o Daniel Teixeira, vulgo Chamber, vulgo Yellows, vulgo Cavalli, vulgo muitas coisas. O Daniel, também morador do bom e velho Paradaise, foi o entusiasta do começo da banda Acauã, o cara que ligava pra todo mundo, que agendava os ensaios e, acima de tudo,  o cara que não sabia tocar porra nenhuma, exceto um triângulo velho e enferrujado. Logo o Yellows passou do triângulo para o teclado, comprado a prestações e a custa de muito xingamento da santa Dona Carmem, mãe do Chamber. Pouco tempo depois o Cavalli já tocava triângulo, pandeiro, teclado, baixo e já frequentava aulas na Universidade Livre de Música com este que vos escreve.  Nesse tempo o Bobó já estava nas mesas de banco ganhando dinheiro.

            Mais ou menos vinte anos depois o Bobó continua ganhando dinheiro. O Daniel é um baixista de primeira linha, produtor, empresário, membro de uma das melhores bandas de forró do Brasil, a Bicho de Pé, dá entrevista na Grobo e tudo o mais. E eu, se não tivesse um talentinho pra contar essa história, já me teria jogado da ponte JK. Olho para trás, vejo o Bobó e o Chamber, e constato: fiquei no meio do caminho. Tenho um dinheirinho? Tenho. Toco um violãozinho? Toco. Sou um Salieri? Sou. Definitivamente sou. 



 
           O Bobó e o Chamber me lembram o livro mais famoso do meu parente mais famoso: o “Feijão e o sonho”, do meu tio-avô, imortal da ABL, Orígenes Lessa. Neste romance, o protagonista Carlos Lara certa hora desabafa: não é possível escrever poesia e pensar no dinheiro do feijão ao mesmo tempo, ainda mais com a esposa Maria Rosa constantemente bufando no cangote. Pensando bem, mesmo estando lá pelo meio, acho que cedi mais ao feijão. Estou mais  para Maria Rosa do que para Carlos Lara.

Estar mais para Maria Rosa é frustrante, é broxante, traz pouca emoção. Quando pensamos na vida pessoal, artística e profissional, o bode fica evidente. Agora, resgatando meu protótipo de cientista político (mesmo depois da chacota do Bobó), a ideia de um centrão talvez não seja de todo mal. Radicalizar demais, não importa o lado, geralmente não dá certo.

Nas minhas eternas e constantes críticas aos governos do PT, sempre fiz questão de frisar: a corrupção, apesar de bisonha, era o menor dos problemas. Todos os outros partidos são corruptos também, a PF e o MP estão provando todo dia o que todo mundo já sabia. Eu, por muito tempo, me iludi achando que o pior do PT era a incompetência administrativa. Bobagem. Era muito, muito pior. O legado mais nefasto do PT foi tornar o Brasil um país dividido entre o feijão e o sonho. O ideário petista (que não se confunde necessariamente com o ideário de esquerda) vende a ideia do sonho sem passar pelo feijão.

Termino minha filosofada de botequim pensando: se é importante aceitar a mediocridade na vida pessoal, na política, então, nem se fala. Nossos amigos britânicos que o digam. Pouquíssimas pessoas tem talento ou determinação para ser excelentes em alguma coisa. E estas pouquíssimas abriram mão de um mundo de coisas para ter esse troféu. A política, arte de conciliar os interesses de milhões, não tem espaço para gênios, líderes messiânicos, donos de soluções mirabolantes para todos os problemas. Quando alguém se vende assim, um Lula, ou mais recentemente, um Ciro Gomes, um Trump da vida, e os eleitores compram, o resultado é quase sempre trágico e leva anos, talvez décadas para ser consertado.

A cena final do meu filme preferido, “Amadeus”, de Milos Forman, pelo qual sou totalmente obcecado, mostra o maestro Salieri sendo empurrado em sua cadeira de rodas, velho, roto e amargo, louvando e absolvendo todos os medíocres do mundo. “I will speak for you, Father. I speak for all mediocrities in the world. I am their champion. I am their patron saint”.  Enquanto o enfermeiro o empurra lentamente, ouve-se ao fundo a música genial e inexplicável de Mozart...


 
Os medíocres fazem o  mundo andar. São a sustança da economia e a salvação da humanidade. Justamente por isso, a política deve sempre se equilibrar no meio. Governos só são minimamente úteis se fizerem as coisas andar pra frente, mesmo que devagar, no ritmo da cadeira de rodas deste maestro.

14.6.16

Quarenta mesmo

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          Quarentar é engraçado. Pode ser a metade da vida. Dá direito àquela tal crise. Na prática, talvez seja a fase da chatice. Achar-se safo suficiente para olhar as pessoas de soslaio. A vida oferece coisas e a gente desconfia. Um bom quarentão não acredita mais em nada: não acredita em políticos, manifestações populares, não acredita mais em nenhum jornalista (são todos vendidos à esquerda ou à direita). Eu me tornei um chato. Amargo, tecnocrata, meticuloso, avesso a tudo: a artistas, a intelectuais e até mesmo  a escritores.

Ser quarentão dá saudades de outros tempos, de um tempo em que o tempo passava mais devagar. Outro dia minha sobrinha Maroca disse: “Tio, lembra quando nós estávamos na Argentina e fomos ao Zoológico? Você ficou bravo comigo quando eu fiz carinho na capivara?”. A perspectiva de uma adolescente de treze anos contando uma memória de criança de nove. Aquela capivara, para mim, estava na semana passada. Uma palavra ao vento de sobrinha me transportou a outro universo. Quando eu tinha a idade dela, as interações com tios tinham um significado mágico, eram duradouras, não eram rotinas chatas de quarentões burocratas.

            Talvez a tal crise da meia-idade seja apenas isso, constatar ponteiros de relógio passando mais rápido. Este ano escrevi duas cartas para pessoas muito queridas na minha vida, minha prima Marília (que na prática é tia) e meu tio Renato. Ambos completaram 80 anos. Hoje, em relação a eles, estou no meio do caminho. Escrevi como se estivessem ali na esquina. O comentário espontâneo da Maroca me remeteu às lembranças carinhosas com todos os meus tios: Renato, Rogério, Raul, Silvia, Yader, Sarah, Paulo. Tive capivaras deliciosas com todos eles.

             Ponteiros passando mais rápido poderiam gerar ansiedade. Sorte que agora me lembrei de um livro, “Felicidade”, de Eduardo Giannetti. Li esse livro num momento bastante infeliz. Há uns dez anos. Estava com trinta e poucos. Casamento, pai e emprego perdidos numa batelada só. Naquela época a leitura do livro me deu uma perspectiva curiosa: apesar de a minha vida estar uma merda, o mundo, o Brasil e talvez a humanidade caminhassem para um lugar melhor.

            Dez anos depois, vi tudo virar do avesso. Não tenho muita certeza em relação ao mundo, mas o Brasil desceu ladeira abaixo e eu, depois de todo o perrengue, acabei melhorando. Encontrei minha paz em Brasília, achei minha Vivica, acabei num emprego público federal com estabilidade. Posso me dar ao luxo de gastar tempo preocupado com os outros. A vida de um funcionário público federal de Brasília em 2016 é uma pequena Finlândia incrustada no Haiti.

            Ao olhar para os próximos quarenta, vejo uma mistura meio desequilibrada. Uma dose cada vez menor de esperança adolescente com doses cavalares de ceticismo. Sou um burocrata frustrado com a burocracia e um artista frustrado com os artistas. Para onde correr? Eu me pego rindo à toa, imaginando se seria possível existir uma alguma arte de direita. Ou talvez um gênio de esquerda não disposto a vender a arte ao João Santana.    

            Meu quarentar é engraçado e trágico. Rio e lamento ao mesmo tempo das politicagens corretas. Rio e lamento das olimpíadas no Rio. Rio e lamento da minha impotência diante de tudo. Leio o Estadão como meu pai lia aos seus quarenta, já meio desanimado, já meio conformado. Li o Estadão hoje lamentando os mesmos PMDBs que meu pai lamentava nos anos 80 e 90.

            Vou terminar com minha esquizofrenia quarentona, meu dilema diário de burocrata versus artista. Meu sonho era ser músico, estudei por décadas, mas nada saiu. Por sorte minha banda favorita, o Rush, comemorou 40 anos de carreira no mesmo ano em que fiz 40. Eu me lembrei também do meu filme favorito, “Amadeus”, onde o maestro Salieri conta sua história de músico medíocre diante do gênio Mozart.

            Talvez meu destino, dos 40 aos 80 seja aceitar meu Salieri.  Vou contar coisas, como faço agora nesta noite fria e rara em Brasília. Quero ser um eterno pêndulo, buro... crata... ar...tista...crata....tista...buro...ar... 

             

             

11.5.16

Tchau, querido Descartes

A única maneira de escrever um texto honesto sobre hoje é separar a razão do coração. Num tempo brasileiro antigo, quando eu ainda não desprezava artistas e intelectuais, ouvi uma manifestação que marcou minha vida. O músico Jorge Mautner declamou uma poesia linda no meio de um show do Gilberto Gil. Dizia algo mais ou menos assim: "Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo, todo coração!".

Uma das principais razões pelas quais desprezo Dilma, Lula e o PT é a hipocrisia. A dissimulação de governar treze anos em nome de um projeto para favorecer os pobres e excluídos e entregar, como todos os dados econômicos hoje comprovam, uma tragédia, uma fatura dolorida a ser paga primordialmente por eles.

Na madrugada de hoje, à medida em que o voto do último senador golpista se aproximar, meu coração vai ameaçar tomar conta. Terei vontades de tomar um porre, abrir uma champanhe, soltar rojão e correr para a praça dos três poderes para fazer um bunda-lê-lê enquanto a presidenta e seus ministros descem a rampa.

Infelizmente minha razão ainda existe. Essa mala sem alça não cansa de me lembrar de que o projeto hipócrita de poder foi aprovado e reaprovado três vezes pela maioria dos brasileiros. Ainda concordo com o argumento de Eduardo Jorge: se não formos capazes de enterrar o PT nas urnas, o fantasma vai nos assombrar para sempre. Talvez não na forma de PT, ou de Lula, pouco importa. O problema do câncer (e o petismo é um câncer) é justamente sua capacidade de se metamorfosear.

Ao contrário da opinião majoritária, acredito que não estamos acertando a Jararaca na cabeça. Estamos fazendo uma coisa tosca e atabalhoada. A euforia pela saída de Dilma corre o risco de ser coroada com uma pusta ressaca, daquelas em que é difícil até abrir o olho.

O grande impichado do processo político brasileiro não será Dilma, será René Descartes. O que vivemos hoje é uma guerra santa, o enterro completo da razão. Não há mais a menor preocupação com os fatos, só com versões. Uma suruba de mentiras, uma festa de vídeos toscos e acusações infundadas no YouTube, nas redes sociais e na TV Senado. Ver parlamentar brasileiro chamar urubu de meu louro deixou de ser piada faz muito tempo. E isso vale para a esquerda, para a direita, para o centro, para o norte e o sul.

Quando a razão dorme, dorme também a democracia. Rodamos e rodamos a roleta por mais de trinta anos para voltar, por opção, ao velho PMDB do Sarney. Durma-se com uma ressaca dessas.

14.4.16

Beyond House of Cards

Uma pessoa comentou comigo hoje: passei na feira do Guará 2 e comprei três DVDs piratas por dez reais! Batman x Superman! Com todo cuidado, afinal era um desconhecido, perguntei, mas você não tem internet a cabo em casa? Ele tinha. Me surpreendi em saber que ainda existe gente preferindo comprar um DVD pirata por dez reais ao invés de pagar dezenove reais por mês no Netflix. Convenhamos, para que piratear quando o “mercado”, essa entidade metafísica e poderosa, nos oferece algo mais razoável?

            Pouco importa. Meras elucubrações neoliberais. Importa agora falar do seriado “House of Cards”. Quem acompanha esta série talvez compartilhe minha sensação de que a semelhança entre seu roteiro e a realidade atual brasileira vai muito além de um meme do Kevin Spacey rindo da tela do Globo News ou da sacada do Financial Times de que estamos mais para “Walking Dead” do que para “House of Cards”. 

            Uma das coisas mais interessantes da série “House of Cards”, na minha modesta opinião, são os momentos em que o protagonista, Frank Underwood, olha para a câmera e faz um comentário com o telespectador. Isso quebra a narrativa de terceira para primeira pessoa. Nos dá o prazer de compartilhar o escárnio e a desfaçatez do personagem. Me fez lembrar do Machado, nosso patrono literário afeito a interromper a narrativa para compartilhar seus anseios com o leitor.

            O que mais me fascinou nessa série, desde a primeira temporada, foi a elevação da ação política ao absurdo. Tentarei definir ação política: passar por cima de tudo e de todos, de quaisquer valores, quaisquer verdades, quaisquer propostas, quaisquer demandas da sociedade para se manter no poder. Em meu mundo real, até então, isso tudo era verdade, mas ainda existia alguma esperança em coisas como movimentos sociais, imprensa livre, internet, instituições republicanas, e, no limite, alguém com algum poder e noção de moral.

            Frank Underwood nos mostra na série uma suposta plausibilidade de chegar à presidência do mais poderoso país do planeta sem um voto sequer. Ele nem sequer era o vice-presidente. As estripulias do poder deram conta do recado. Em última análise, a série nos faz questionar a eficiência da democracia. Kevin Spacey faz desse momento a mais notória quebra de narrativa da série. Perceber o Brasil pior do que House of Cards não é caso de meme no Facebook, é caso de genuíno desespero. Um Brasil mais surrealista do que “House of Cards” me lembrou hoje do dia em que li o livro do Gabo sobre os tempos de Pablo Escobar. Um livro em que o realismo fantástico perde a graça diante da realidade.

            Não faço a menor ideia de como concluir esse texto. Vou dar uma de Machado, uma de Frank Underwood, vou virar para a tela, olhar nos olhos de vocês e dizer: “Pois é. Eu não sei”. Vamos de Dilma até 2018? Vamos de Temer? Vamos de novas eleições? Vamos de República do Golden Tulip? (Para quem não sabe, é o Hotel de onde Lula está governando o país atualmente). Vamos de Cunha? De Renan? De Presidente do Supremo?

     Alguém, nas próximas semanas, decidirá por nós. Não será um constitucionalista, um representante dos movimentos sociais, um empresário, um funcionário público, um desempregado, um banqueiro, um jornalista, um representante de ONG. Será um Frank Underwood. Pior: Será um Frank Underwood tupiniquim.