1.7.16

O valor da mediocridade


        Teoricamente, posso me dizer um cientista político. Sou bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na prática, sempre me senti como alvo da chacota do meu amigo Eduardo Bodra, vulgo Bobó, um cara sempre pronto a lembrar: eu era um estudante de Relações Espaciais de um curso técnico da zona oeste.

            Bobó era meu amigo da rua Afonso de Freitas, no Paraíso, colega do Bandeirantes. Entramos juntos na FEA-USP, ele em Economia, eu em Administração, ambos lá pelos dezoito anos. Apesar de caminharmos juntos nas primeiras alucinações universitárias – formamos uma banda de forró chamada Acauã – ele entendeu mais rápido o que era a vida, foi trabalhar para ganhar dinheiro e logo logo ganhou. Já eu fiquei perdido naquela coisa da arte, da esquerda, do sentido da vida, dos sonhos de 1968, investi mais alguns anos na música, foquei nos meus estudos de Relações Espaciais da PUC-SP, enfim, deixei a Administração e a realidade a ver navios.

            Mas o Bobó era apenas um polo do espectro.  No outro pólo estava o Daniel Teixeira, vulgo Chamber, vulgo Yellows, vulgo Cavalli, vulgo muitas coisas. O Daniel, também morador do bom e velho Paradaise, foi o entusiasta do começo da banda Acauã, o cara que ligava pra todo mundo, que agendava os ensaios e, acima de tudo,  o cara que não sabia tocar porra nenhuma, exceto um triângulo velho e enferrujado. Logo o Yellows passou do triângulo para o teclado, comprado a prestações e a custa de muito xingamento da santa Dona Carmem, mãe do Chamber. Pouco tempo depois o Cavalli já tocava triângulo, pandeiro, teclado, baixo e já frequentava aulas na Universidade Livre de Música com este que vos escreve.  Nesse tempo o Bobó já estava nas mesas de banco ganhando dinheiro.

            Mais ou menos vinte anos depois o Bobó continua ganhando dinheiro. O Daniel é um baixista de primeira linha, produtor, empresário, membro de uma das melhores bandas de forró do Brasil, a Bicho de Pé, dá entrevista na Grobo e tudo o mais. E eu, se não tivesse um talentinho pra contar essa história, já me teria jogado da ponte JK. Olho para trás, vejo o Bobó e o Chamber, e constato: fiquei no meio do caminho. Tenho um dinheirinho? Tenho. Toco um violãozinho? Toco. Sou um Salieri? Sou. Definitivamente sou. 



 
           O Bobó e o Chamber me lembram o livro mais famoso do meu parente mais famoso: o “Feijão e o sonho”, do meu tio-avô, imortal da ABL, Orígenes Lessa. Neste romance, o protagonista Carlos Lara certa hora desabafa: não é possível escrever poesia e pensar no dinheiro do feijão ao mesmo tempo, ainda mais com a esposa Maria Rosa constantemente bufando no cangote. Pensando bem, mesmo estando lá pelo meio, acho que cedi mais ao feijão. Estou mais  para Maria Rosa do que para Carlos Lara.

Estar mais para Maria Rosa é frustrante, é broxante, traz pouca emoção. Quando pensamos na vida pessoal, artística e profissional, o bode fica evidente. Agora, resgatando meu protótipo de cientista político (mesmo depois da chacota do Bobó), a ideia de um centrão talvez não seja de todo mal. Radicalizar demais, não importa o lado, geralmente não dá certo.

Nas minhas eternas e constantes críticas aos governos do PT, sempre fiz questão de frisar: a corrupção, apesar de bisonha, era o menor dos problemas. Todos os outros partidos são corruptos também, a PF e o MP estão provando todo dia o que todo mundo já sabia. Eu, por muito tempo, me iludi achando que o pior do PT era a incompetência administrativa. Bobagem. Era muito, muito pior. O legado mais nefasto do PT foi tornar o Brasil um país dividido entre o feijão e o sonho. O ideário petista (que não se confunde necessariamente com o ideário de esquerda) vende a ideia do sonho sem passar pelo feijão.

Termino minha filosofada de botequim pensando: se é importante aceitar a mediocridade na vida pessoal, na política, então, nem se fala. Nossos amigos britânicos que o digam. Pouquíssimas pessoas tem talento ou determinação para ser excelentes em alguma coisa. E estas pouquíssimas abriram mão de um mundo de coisas para ter esse troféu. A política, arte de conciliar os interesses de milhões, não tem espaço para gênios, líderes messiânicos, donos de soluções mirabolantes para todos os problemas. Quando alguém se vende assim, um Lula, ou mais recentemente, um Ciro Gomes, um Trump da vida, e os eleitores compram, o resultado é quase sempre trágico e leva anos, talvez décadas para ser consertado.

A cena final do meu filme preferido, “Amadeus”, de Milos Forman, pelo qual sou totalmente obcecado, mostra o maestro Salieri sendo empurrado em sua cadeira de rodas, velho, roto e amargo, louvando e absolvendo todos os medíocres do mundo. “I will speak for you, Father. I speak for all mediocrities in the world. I am their champion. I am their patron saint”.  Enquanto o enfermeiro o empurra lentamente, ouve-se ao fundo a música genial e inexplicável de Mozart...


 
Os medíocres fazem o  mundo andar. São a sustança da economia e a salvação da humanidade. Justamente por isso, a política deve sempre se equilibrar no meio. Governos só são minimamente úteis se fizerem as coisas andar pra frente, mesmo que devagar, no ritmo da cadeira de rodas deste maestro.

14.6.16

Quarenta mesmo

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          Quarentar é engraçado. Pode ser a metade da vida. Dá direito àquela tal crise. Na prática, talvez seja a fase da chatice. Achar-se safo suficiente para olhar as pessoas de soslaio. A vida oferece coisas e a gente desconfia. Um bom quarentão não acredita mais em nada: não acredita em políticos, manifestações populares, não acredita mais em nenhum jornalista (são todos vendidos à esquerda ou à direita). Eu me tornei um chato. Amargo, tecnocrata, meticuloso, avesso a tudo: a artistas, a intelectuais e até mesmo  a escritores.

Ser quarentão dá saudades de outros tempos, de um tempo em que o tempo passava mais devagar. Outro dia minha sobrinha Maroca disse: “Tio, lembra quando nós estávamos na Argentina e fomos ao Zoológico? Você ficou bravo comigo quando eu fiz carinho na capivara?”. A perspectiva de uma adolescente de treze anos contando uma memória de criança de nove. Aquela capivara, para mim, estava na semana passada. Uma palavra ao vento de sobrinha me transportou a outro universo. Quando eu tinha a idade dela, as interações com tios tinham um significado mágico, eram duradouras, não eram rotinas chatas de quarentões burocratas.

            Talvez a tal crise da meia-idade seja apenas isso, constatar ponteiros de relógio passando mais rápido. Este ano escrevi duas cartas para pessoas muito queridas na minha vida, minha prima Marília (que na prática é tia) e meu tio Renato. Ambos completaram 80 anos. Hoje, em relação a eles, estou no meio do caminho. Escrevi como se estivessem ali na esquina. O comentário espontâneo da Maroca me remeteu às lembranças carinhosas com todos os meus tios: Renato, Rogério, Raul, Silvia, Yader, Sarah, Paulo. Tive capivaras deliciosas com todos eles.

             Ponteiros passando mais rápido poderiam gerar ansiedade. Sorte que agora me lembrei de um livro, “Felicidade”, de Eduardo Giannetti. Li esse livro num momento bastante infeliz. Há uns dez anos. Estava com trinta e poucos. Casamento, pai e emprego perdidos numa batelada só. Naquela época a leitura do livro me deu uma perspectiva curiosa: apesar de a minha vida estar uma merda, o mundo, o Brasil e talvez a humanidade caminhassem para um lugar melhor.

            Dez anos depois, vi tudo virar do avesso. Não tenho muita certeza em relação ao mundo, mas o Brasil desceu ladeira abaixo e eu, depois de todo o perrengue, acabei melhorando. Encontrei minha paz em Brasília, achei minha Vivica, acabei num emprego público federal com estabilidade. Posso me dar ao luxo de gastar tempo preocupado com os outros. A vida de um funcionário público federal de Brasília em 2016 é uma pequena Finlândia incrustada no Haiti.

            Ao olhar para os próximos quarenta, vejo uma mistura meio desequilibrada. Uma dose cada vez menor de esperança adolescente com doses cavalares de ceticismo. Sou um burocrata frustrado com a burocracia e um artista frustrado com os artistas. Para onde correr? Eu me pego rindo à toa, imaginando se seria possível existir uma alguma arte de direita. Ou talvez um gênio de esquerda não disposto a vender a arte ao João Santana.    

            Meu quarentar é engraçado e trágico. Rio e lamento ao mesmo tempo das politicagens corretas. Rio e lamento das olimpíadas no Rio. Rio e lamento da minha impotência diante de tudo. Leio o Estadão como meu pai lia aos seus quarenta, já meio desanimado, já meio conformado. Li o Estadão hoje lamentando os mesmos PMDBs que meu pai lamentava nos anos 80 e 90.

            Vou terminar com minha esquizofrenia quarentona, meu dilema diário de burocrata versus artista. Meu sonho era ser músico, estudei por décadas, mas nada saiu. Por sorte minha banda favorita, o Rush, comemorou 40 anos de carreira no mesmo ano em que fiz 40. Eu me lembrei também do meu filme favorito, “Amadeus”, onde o maestro Salieri conta sua história de músico medíocre diante do gênio Mozart.

            Talvez meu destino, dos 40 aos 80 seja aceitar meu Salieri.  Vou contar coisas, como faço agora nesta noite fria e rara em Brasília. Quero ser um eterno pêndulo, buro... crata... ar...tista...crata....tista...buro...ar... 

             

             

11.5.16

Tchau, querido Descartes

A única maneira de escrever um texto honesto sobre hoje é separar a razão do coração. Num tempo brasileiro antigo, quando eu ainda não desprezava artistas e intelectuais, ouvi uma manifestação que marcou minha vida. O músico Jorge Mautner declamou uma poesia linda no meio de um show do Gilberto Gil. Dizia algo mais ou menos assim: "Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo, todo coração!".

Uma das principais razões pelas quais desprezo Dilma, Lula e o PT é a hipocrisia. A dissimulação de governar treze anos em nome de um projeto para favorecer os pobres e excluídos e entregar, como todos os dados econômicos hoje comprovam, uma tragédia, uma fatura dolorida a ser paga primordialmente por eles.

Na madrugada de hoje, à medida em que o voto do último senador golpista se aproximar, meu coração vai ameaçar tomar conta. Terei vontades de tomar um porre, abrir uma champanhe, soltar rojão e correr para a praça dos três poderes para fazer um bunda-lê-lê enquanto a presidenta e seus ministros descem a rampa.

Infelizmente minha razão ainda existe. Essa mala sem alça não cansa de me lembrar de que o projeto hipócrita de poder foi aprovado e reaprovado três vezes pela maioria dos brasileiros. Ainda concordo com o argumento de Eduardo Jorge: se não formos capazes de enterrar o PT nas urnas, o fantasma vai nos assombrar para sempre. Talvez não na forma de PT, ou de Lula, pouco importa. O problema do câncer (e o petismo é um câncer) é justamente sua capacidade de se metamorfosear.

Ao contrário da opinião majoritária, acredito que não estamos acertando a Jararaca na cabeça. Estamos fazendo uma coisa tosca e atabalhoada. A euforia pela saída de Dilma corre o risco de ser coroada com uma pusta ressaca, daquelas em que é difícil até abrir o olho.

O grande impichado do processo político brasileiro não será Dilma, será René Descartes. O que vivemos hoje é uma guerra santa, o enterro completo da razão. Não há mais a menor preocupação com os fatos, só com versões. Uma suruba de mentiras, uma festa de vídeos toscos e acusações infundadas no YouTube, nas redes sociais e na TV Senado. Ver parlamentar brasileiro chamar urubu de meu louro deixou de ser piada faz muito tempo. E isso vale para a esquerda, para a direita, para o centro, para o norte e o sul.

Quando a razão dorme, dorme também a democracia. Rodamos e rodamos a roleta por mais de trinta anos para voltar, por opção, ao velho PMDB do Sarney. Durma-se com uma ressaca dessas.

14.4.16

Beyond House of Cards

Uma pessoa comentou comigo hoje: passei na feira do Guará 2 e comprei três DVDs piratas por dez reais! Batman x Superman! Com todo cuidado, afinal era um desconhecido, perguntei, mas você não tem internet a cabo em casa? Ele tinha. Me surpreendi em saber que ainda existe gente preferindo comprar um DVD pirata por dez reais ao invés de pagar dezenove reais por mês no Netflix. Convenhamos, para que piratear quando o “mercado”, essa entidade metafísica e poderosa, nos oferece algo mais razoável?

            Pouco importa. Meras elucubrações neoliberais. Importa agora falar do seriado “House of Cards”. Quem acompanha esta série talvez compartilhe minha sensação de que a semelhança entre seu roteiro e a realidade atual brasileira vai muito além de um meme do Kevin Spacey rindo da tela do Globo News ou da sacada do Financial Times de que estamos mais para “Walking Dead” do que para “House of Cards”. 

            Uma das coisas mais interessantes da série “House of Cards”, na minha modesta opinião, são os momentos em que o protagonista, Frank Underwood, olha para a câmera e faz um comentário com o telespectador. Isso quebra a narrativa de terceira para primeira pessoa. Nos dá o prazer de compartilhar o escárnio e a desfaçatez do personagem. Me fez lembrar do Machado, nosso patrono literário afeito a interromper a narrativa para compartilhar seus anseios com o leitor.

            O que mais me fascinou nessa série, desde a primeira temporada, foi a elevação da ação política ao absurdo. Tentarei definir ação política: passar por cima de tudo e de todos, de quaisquer valores, quaisquer verdades, quaisquer propostas, quaisquer demandas da sociedade para se manter no poder. Em meu mundo real, até então, isso tudo era verdade, mas ainda existia alguma esperança em coisas como movimentos sociais, imprensa livre, internet, instituições republicanas, e, no limite, alguém com algum poder e noção de moral.

            Frank Underwood nos mostra na série uma suposta plausibilidade de chegar à presidência do mais poderoso país do planeta sem um voto sequer. Ele nem sequer era o vice-presidente. As estripulias do poder deram conta do recado. Em última análise, a série nos faz questionar a eficiência da democracia. Kevin Spacey faz desse momento a mais notória quebra de narrativa da série. Perceber o Brasil pior do que House of Cards não é caso de meme no Facebook, é caso de genuíno desespero. Um Brasil mais surrealista do que “House of Cards” me lembrou hoje do dia em que li o livro do Gabo sobre os tempos de Pablo Escobar. Um livro em que o realismo fantástico perde a graça diante da realidade.

            Não faço a menor ideia de como concluir esse texto. Vou dar uma de Machado, uma de Frank Underwood, vou virar para a tela, olhar nos olhos de vocês e dizer: “Pois é. Eu não sei”. Vamos de Dilma até 2018? Vamos de Temer? Vamos de novas eleições? Vamos de República do Golden Tulip? (Para quem não sabe, é o Hotel de onde Lula está governando o país atualmente). Vamos de Cunha? De Renan? De Presidente do Supremo?

     Alguém, nas próximas semanas, decidirá por nós. Não será um constitucionalista, um representante dos movimentos sociais, um empresário, um funcionário público, um desempregado, um banqueiro, um jornalista, um representante de ONG. Será um Frank Underwood. Pior: Será um Frank Underwood tupiniquim.


             

23.3.16

Em tempos de luta, ninguém conserta o ventilador


          Certa vez li um artigo do Antônio Prata na Folha onde ele contava uma experiência vivida na faculdade. Se não me falha a memória, ele também estudou na PUC-SP, como eu. Creio que depois de mim, mas não tenho certeza. Pouco importa. O cenário era o mesmo. Segundo o cronista, seus colegas um dia se revoltaram com a inoperância dos ventiladores da classe durante um verão mais cruel do que a média. Mobilizaram-se, fizeram abaixo assinado e coisa e tal. Um dos piqueteiros teve a brilhante ideia de pedir apoio ao Centro Acadêmico local. No dia da entrega do manifesto, chegaram com um certo plus a mais. Além da demanda pelo conserto do ventilador, pediam o fim do PROER, o boicote ao Plano Real e o Fora FHC. Devo ter distorcido bastante a história, mas lhes asseguro, era algo nessa linha.

            Minha identificação foi imediata. Lembrei dos meus tempos de Relações Internacionais na PUC-SP. Em 1996 o Cento Acadêmico de Ciências Sociais era dominado pela esquerda militante fora-FHC. Um dia perguntei a uma das “membras” do CA, minha amicíssima e ex-colega de escola,  por que eles nunca organizavam seminários, palestras, congressos estudantis, cervejadas, sei lá, uma coisa assim... “acadêmica”? Recebi a resposta na lata: “Não tem tempo pra isso aqui, Iatã. Isso aqui é um espaço de luta!”.

            Pois é. Eu ainda era jovem. Ainda era, nas palavras do mesmo Antônio Prata, “meio intelectual, meio de esquerda”, achei aquilo meio incômodo, mas não me revoltei. Jamais imaginei aquele microcosmos tosco da rua Monte Alegre se proliferando por um país inteiro.

            Alguém notou que faz mais de duas semanas que o Zika vírus não aparece em nenhuma capa de jornal? Enquanto durar nosso UFC Fighting Político – e ele vai durar muito – ninguém vai se lembrar de consertar o ventilador da PUC-SP, ou melhor, ninguém vai se preocupar com a segurança pública, com os milhões de desempregados, a política externa, enfim, a lista é longa, enfadonha e triste. Todos os ventiladores do Brasil permanecerão desligados enquanto o STF faz sua Páscoa estendida e enquanto todos os poderes brasileiros estendem suas decisões de acordo com o devido processo legal.

            Desenvolvi o hábito salutar de rir da minha própria ingenuidade. Há pouco tempo, talvez dois ou três anos, tirei umas deliciosas férias com minha irmã, meu cunhado e meus sobrinhos numa praia mais isolada em Alagoas. Levei aquele livrão do Mario Sergio Conti, “Notícias do Planalto”. Depois de devorá-lo bem devagar, ao som das ondas e à sombra das palmeiras, filosofei de botequim: “Jamais terei paciência para passar por isso de novo”. De fato não tenho. Vivo hoje sem ter pra onde ir. Estou num programa do Silvio Santos: “Vai pra lá! Vai pra cá! Mas... Eu não sei!”.

            Quantos caos institucionais um brasileiro é capaz de suportar? Eu confesso não conseguir mais suportar o segundo. Aliás, segundo é arredondamento. Tenho quase quarenta anos. Encarei Figueiredo, Sarney e Collor. A crueldade maior, quando me comparo com meu pai e todos os meus antepassados é constatar que eles, pelo menos, não viveram o morde e assopra. Eles sempre viveram na esbórnia. Nós tivemos o gostinho etéreo, alguns aninhos de inflação baixa, responsabilidade fiscal, sonho de planejamento a longo prazo, ensaio de inserção no comércio internacional.

             Depois veio nosso maestro soberano e disse: “Tristeza não tem fim. Felicidade sim.”.       


13.3.16

Meus Lulas


O Lula de número 1

Há alguns dias acordei como todo neurótico e ansioso desse mundo. O celular virou um apêndice não operável, uma praga grudenta desde a manhã até os últimos minutos antes de pegar no sono. Demorei a acreditar na veracidade daquelas manchetes. Desliguei aquele troço, fiz um café, tomei banho e olhei de novo. Era aquilo mesmo. Lula estava sendo levado para um passeio com a Polícia Federal.

Tento desenvolver o salutar hábito de me olhar no espelho e repassar meu passado antes de julgar qualquer pessoa. Meu pai, pastor presbiteriano, me ensinou: aquele entre vós que está sem pecado, atire a primeira pedra. Pecados eu tenho muitos. Se deito a cabeça no travesseiro tranquilo todas as noites, uma coisa é certa: só profanei minha própria alma. Os cofres públicos, balanços de estatais, licitações fraudulentas e transações com doleiros de nome árabe continuam muito distantes da minha singela realidade.

Em 1982, meu pai se candidatou a vereador pelo PMDB. Eu tinha seis anos. Tenho várias recordações legais dessa época.  Uma delas era um panfleto onde meu pai expunha suas propostas e, do lado esquerdo, havia uma caricatura do Henfil trazendo o Maluf, o Delfim e o Reynaldo de Barros com um balãozinho: “Eles estão acabando com o Brasil!”.  

Todo político pode ter seus poréns. Mas o papai naquela época se aliou com o que havia de melhor: Severo Gomes, Almino Afonso, Franco Montoro, Mário Covas, Flávio Bierrenbach. Quase foi eleito. Teve mais de doze mil votos. Pouco tempo depois eu estive com ele no Pacaembú, num jogo do Corinthians, e o narrador, depois de declamar a frase cabalística – Todo atleta merece respeito, se não quiser aplaudir, silencie-se – anunciou o público presente no estádio. Onze mil e não sei quantos. Papai parou, deu uma suspirada, olhou em volta e disse: “Filho, mais de um estádio desse votou em mim. Dá pra imaginar?”.  

Nesse tempo Lula era apenas um traço. Tentou ser governador de São Paulo. Se não houvesse livro de história, ninguém com menos de quarenta anos lembraria.

O Lula de número 2

Ah, 1989! Esse sim foi um ano interessante! A primeira eleição presidencial depois da ditadura. Lembro até hoje dos jingles. Essa eleição, positivamente, não trouxe nada de bom para o país. Agora, uma coisa é certa. Nunca antes, tampouco depois, na história desse país, foram compostos jingles tão geniais para candidatos a presidente. “Lula-lá, brilha uma estrela”. “La-la-la-la-la... Brizoooolá”. “Bote fé, no velhinho, que o velhinho é demais! Bote fé, no velhinho, que ele sabe o que faz!”. “Juntos chegaremos lá, fé no Brasil! Com Afif juntos chegaremos lá!”, com o adendo do “Dois patinhos, na lagoa, vote Afif, 22!”.

Até o candidato nulo Affonso Camargo do PTB conseguiu ganhar seu destaque na telinha comprando o apoio do inesquecível Tião Macalé. Ainda tem o Aureliano, gente. Nunca me esqueci da emoção da frase: “Aureliano é muito verdadeiro...”. Eram gênios da propaganda trabalhando ali. Já o prêmio de pior jingle e pior marketing político (Ah, vá?!) foi para o PSDB, com o jingle de Mário Covas. Se um robô japonês ouvisse esse jingle 500 vezes, provavelmente não seria capaz de reproduzi-lo. É uma pena. Pensei mais de uma vez em escrever um livro ficcional imaginando o que teria sido o Brasil se Mário Covas tivesse sido eleito em 1989. Sonhar é grátis. Teria dado um bom romance.

Houve ainda a tentativa do Silvio Santos de virar presidente da República. Um livro sobre Silvio Santos presidente em 1989 não seria romance, seria ficção científica. Tinha jingle também, em ritmo de “Vamos sorrir e cantar”:

Chegou aquele,
que a gente queria
Para o Brasil governar
Agora o povo
Está contente
Já temos em quem votar
É o Vinte seis!
É o vinte seis!
Com Silvio Santos chegou a nossa vez! 


 

O mesmo ano de 1989 nos brindou com os famigerados debates dos candidatos à presidência na televisão. Até hoje faço piada interna com amigos como Eduardo Bobó e Graciliano Dória: “Desequilibrado!”, “Filhote da ditadura!”, “Não lhe dou aparte!”. 


 

Voltando agora ao cronista, queria deixar algumas memórias dessa época. Eu seguia, obviamente, a vontade do papai de apoiar Mario Covas no primeiro turno. No segundo turno, entramos no embate Collor x Lula. Aqui começa minha mágoa visceral de quem hoje, em 2016,  me chama de coxinha. Eu, desde os treze anos, apoiei o candidato Lula. Empunhei bandeiras, tomei porrada e passei por humilhações no meu bairro.

Até aí tudo bem. Eu era moleque, tinha ouvido até não poder mais as aventuras dos meus pais nos anos de chumbo, dava para aguentar meia dúzia de burguesinhos babacas num condomínio de classe média. A pulga atrás da orelha apareceu quando minha professora de violão, super artista, super alternativa, super Humanas, confessou, num bate papo com a mamãe, que votaria em Collor.

Aquilo caiu naquela tarde nula, sei lá, suponho, uma terça-feira à tarde, como um tijolo numa partida de dominó. Como assim? Ela, a referência artística da casa, a jovem que ensinava ao Iatã, pequenino burguês, as músicas divinas da esquerda artística, Baden Powell, Chico Buarque, Caê, Gil, iria votar em Collor?

Hoje, da distância de mais de vinte e cinco anos, eu a entendo com uma clareza solar. Ela era uma professora de violão excepcional, assim como era Dona Marlene, minha querida professora de piano. Só não virei um exímio músico por absoluta falta de talento. Instrutoras não me faltaram. Como dizia o papai, citando o Coelho Neto, eu era “moita, faltava-me o sopro”.

A professora de violão era boa a ponto de organizar apresentações dos alunos em teatros. Num dos ensaios, na casa dela, eu ainda era criança, havia alguns alunos mais velhos discutindo política. Pela primeira vez na vida conheci pessoas truculentas de esquerda. Entendi, ainda criança, uma coisa meio óbvia, muito antes de estudar Ciência Política na PUC-SP: existem fascistas de esquerda e de direita. Vi que a boçalidade não escolhe ideologia. Percebi, talvez cedo demais, que política não é para amadores.

O Lula de número 3

A vitória de Luiza Erundina em 1988 foi o primeiro grande passo do PT em busca da projeção nacional. Esse processo eleitoral foi muito interessante. O fato de estar lembrando disso agora, com essa riqueza de detalhes, me faz sentir extremamente velho e rio sozinho enquanto escrevo.  Além de ter sido a primeira grande vitória do PT, essa eleição foi marcada por ter sido a última antes da lei ser alterada e o segundo turno passar a existir. Isso explica, em grande parte, a vitória de Luiza Erundina. Muitas pessoas que iriam votar no Serra, acabaram votando em Erundina para evitar a vitória do Paulo Maluf, entre elas os meus queridos pais.  Foi a eleição do “voto útil” e também a primeira vez em que a influência das pesquisas eleitorais teve profunda influência no resultado final da eleição. Essa história mostra como a decisão do voto na minha casa pendia com facilidade entre o PT e o PSDB. O PMDB da época da candidatura do meu pai, já se transformara nessa coisa horrorosa que continua a ser até hoje.


 Durante os anos FHC, a estabilização da economia, o fim da inflação, não foram suficientes para convencer um idiota esquerdista como eu, lobotomizado por anos e anos de professores marxistas na escola, a apoiar o governo vigente. Sem contar o peso inequívoco da opinião do meu pai, acometido por mal similar. A única diferença era a intensidade e o histórico da contaminação do vírus.

Entrei na faculdade num ano meio ingrato. Em 1994, não tinha conhecimento técnico, muito menos experiência de vida suficientes para entender com profundidade o que se passava no país. Fui absorvendo, como todo mundo, os benefícios óbvios que a estabilização da economia trazia ao Brasil. Mas a genialidade dos formuladores do Plano Real era  inquestionável. Especialmente depois de ter vivido todos os pacotes econômicos do Sarney e do Collor. Aqui caberia lembrar os clássicos da teoria econômica de doutores como Guido Mantega e Aloísio Mercadante sobre as “falhas estruturais” do Plano Real, mas aí já seria empurrar bêbado de ladeira. Passemos às coisa mais interessantes.

Nesse período, de 1994 a 1998, ainda não estava totalmente consolidado o famigerado Fla x Flu entre PT x PSDB. O debate político, pelo menos na minha casa, ainda era caracterizado pelo maniqueísmo de 1989, pelo embate entre as “forças progressistas” e as “reminiscências da ditadura”. Mário Covas certamente foi o político que melhor representou essa tendência. Foi o único – e último – tucano a apoiar incondicionalmente o PT contra uma suposta “direita”. Apoiou Lula no segundo turno de 1989 e depois, já extremamente debilitado de saúde, fez questão de apoiar Marta Suplicy nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 2000.

Ainda nessa toada, lembro com carinho as eleições para governador de São Paulo em 1998. Além do amor pelo Corinthians, uma das coisas que mais me conectava com meu pai, dado que sempre tivemos interesses completamente distintos sobre quase tudo, era a cruzada anti-malufismo. Nesse ano, o  candidato “evangélico” Francisco Rossi despontou como favorito. Uso a palavra “evangélico” entre aspas sempre que me refiro a um membro de igreja picareta. Sou filho de um evangélico de verdade e acho pertinente a distinção.

Enfim, voltando ao assunto, Francisco Rossi acabou esmorecendo e o segundo turno foi entre Mário Covas e Maluf. No começo do segundo turno, Maluf estava na frente. No decorrer da campanha, utilizando um discurso que nunca mais vi em nenhuma campanha eleitoral, Covas apelava aos princípios, aos valores, às coisas que qualquer pessoa normal, pelo menos no meu mundo, priorizaria. No dia em que Mário Covas ultrapassou Maluf nas pesquisas eleitorais do segundo turno, o papai saiu mais cedo de casa. Eu ainda não havia acordado. Ele colocou a Folha de São Paulo debaixo da porta do meu quarto com um bilhetinho em cima: “Filho querido, vencemos!”. 

 
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Mesmo vinte anos depois, completamente desiludido com a política, com todos os partidos, essa é uma das recordações mais queridas que tenho do meu pai. Saudade de um tempo em que éramos trouxas, ingênuos, acreditávamos na política e na humanidade.


Os Lulas de número 4, 5,6 , 7....


Imagino um leitor chegando até esse ponto do meu texto. “Agora vai! Agora ele desce a lenha nos petralhas!”. Foi mal, pessoal. Vou passar. Meu bode atual é com o mundo, não com o PT. Tenho bode do Reynaldo Azevedo, do Sakamoto, do Lobão, da Carta Capital, da Veja, do Instituto Lula, do Ministério Público de São Paulo, das feministas, do Olavo de Carvalho, das redes sociais, enfim, da puta que pariu. Um bode gigante, cagão e fedido, toma conta do meu dia-a-dia de brasileiro. Sinto uma vontade inexplicável de ser simples. Trabalhar, construir, cooperar, ser legal, gente fina. Queria ser obrigado a filosofar menos e fazer mais. Ser menos ideológico e mais prático.

Faço aqui valer a licença básica do cronista, qual seja, não ser cientista político, mas fazer ciência política de botequim. Quando eu era novinho, petista e idealista militante, um tio meu me disse: “Filho, eu admiro suas intenções, mas eu já vi esse filme muitas vezes. É tudo a mesma coisa, não se iluda. O tempo vai te mostrar”. Naquele dia eu pensei: “Nossa, como meu tio é desiludido, direitista, conservador”. Ele me disse isso uns vinte anos antes de mensalões, petrolões e similares.

Naquele tempo eu me achava superior. Eu, um Themudo Lessa, membro de família de intelectuais, sobrinho-neto do imortal Orígenes Lessa, sabia muito mais sobre política do que as empregadas, faxineiros e pedreiros na hora de votar. Na hora de encarar a urna, eu, estudante de elite, providenciaria a redenção dos pobres. Mesmo que alguns deles, desamparados e iludidos, fossem ludibriados pelos PTBistas de plantão, eu estaria lá. Para votar em Genoíno! Para votar em José Dirceu! (Infelizmente não é ironia, é verdade).

Essa talvez seja a grande ilusão da democracia. Continuo convicto de que é milhões de vezes melhor do que qualquer ditadura, mas, convenhamos, não é lá grande coisa. Depois de me assumir como brasiliense e abandonar de vez minha cidadania paulistana, me dei ao trabalho de ler com atenção a edição do Correio Braziliense, depois das eleições de 2014. Todos os deputados distritais eleitos tinham basicamente três perfis: filhos ou parentes de oligarquias locais, sindicalistas ligados à CUT ou membros de igrejas evangélicas de quinta categoria. A esperança em voga, com a eleição do novo governador Rodrigo Rollemberg, tinha fundamento? Com essa assembléia?

Enquanto lia esse jornal, na minha mesinha do Banco Central, me lembrei da juventude, do tempo em que me achava malandrão e politizado. Estava andando de skate no parque do Ibirapuera com alguns manos do Paraíso, quando, não me perguntem por que cargas d’água, surgiu o assunto eleições. Um dos caras, com mais de desesseis anos, falou que iria votar no Turco Louco. Minha intelectualidade prufunda não resistiu e questionou: “Por que, mano? O cara é um puta dum sem noção?”. Ele respondeu e me calou a boca: “Ué, democracia não é pra representatividade? O cara é esqueitista, eu sou esqueitista”. Pense na população do Distrito Federal e veja os representantes eleitos. Há alguma contradição? Eu não vejo nenhuma.

Eu não vou participar das manifestações do dia 13/03/2016 por uma razão muito simples. Sou um democrata e não conheço ninguém que tenha votado na Dilma e esteja arrependido. Por mais surrealista que essa afirmação pareça, ela é rigorosamente verdadeira. Eu não acredito mais nem em histórias da carochinha, nem em pesquisas do Datafolha. Bote cada um dos 51 milhões numa máquina de tempo hoje, leve-os de volta a 31 de outubro de 2014 e 98% cravarão o 13 de novo. E tenho poucas dúvidas de que Lula seria reeleito se uma nova eleição fosse feita hoje.


Mesmo vendo o Marcelo Adnet me ridicularizando no horário nobre da Globo através de paródias do Chico Buarque, eu estou confortável e assumido na minha posição de coxinha. Afinal, para ele e para a maioria das pessoas, vale a lição do João Santana: se você não está conosco, está contra nós. Se não é petista, é tucano e etc. . Todo mundo é igual: Veja, Lobão, Reynaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Geraldo Alckmin, Narcisa Tamborindeguy, Jair Bolsonaro, eu e todo mundo que saiu de casa de verde amarelo hoje. Tudo a mesma jossa.

Eu escrevo no meu bloguinho, faço meus postizinhos no Facebook e me sinto como aquelas pulgas do desenho animado, ou aquele jacaré do Pica-Pau que fica com a voz fininha depois de ser atingido pelo miniaturizador: “Mi mi piririi mi mi mi”. Tradução: “Eu queria dizer que tenho ideias proprias, caso alguém esteja interessado em ouvir!”.

Não tenho o menor pudor de admitir que a ideia de sair do Brasil me atrai. Pela razão simples já explicada acima. Para mim esse é o Brasil que a maioria dos brasileiros quer. Se isso me violenta, cabe a mim pedir pra sair. Infelizmente hoje isso não é possível, por uma infinidade de razões pessoais. Mas, tenho prazer nos exercícios de imaginação. Não para Miami, né? Muito chinfrim, muito desinteressante. Vários amigos já se foram e fiquei com aquela inveja boa. Alguns pra Miami, outros para o Chile, outro pra Londres. Eu iria para a Nova Zelândia. Criaria ovelhas, fabricaria cerveja em casa e mandaria meu currículo para aos bancos locais.

Noutras oras minha esquizofrenia se manifesta, converso comigo mesmo, vejo tudo isso como grande bobagem. Talvez seja uma questão genética. Meu nome advém de um acesso de Policarpo Quaresma do meu pai. Na busca de um nome genuinamente brasileiro, ele não se satisfez com o português cristão “Lucas”, sugerido pela mamãe, teve de cravar o tupi-guarani “Iatã”. Duvido, muitas vezes, da minha capacidade de passar mais de duas semanas sem um arroz com feijão e um joguinho do Curíntias. Quiçá o resto da vida.

No fim das contas, eu talvez até encarasse uma fila no Pão de Açúcar para comprar papel higiênico, uma inflação de três dígitos e os populismos de costume. Eu só não fico mais aqui no dia em não puder mais escrever. Se esse dia chegar, eu atravesso o Atlântico de canoa. Não volto nunca mais.

8.3.16

O Dia Internacional da Mulher

Me incomoda demais, na maioria das manifestações feministas, a incapacidade de separar casos de polícia de outros assuntos, em minha opinião menores, ligados a patrulhamentos politicamente corretos, cotas e congêneres. Minha recusa em apoiar estes movimentos, muitas vezes bem intencionados - e sei que são bem intencionados porque conheço algumas pessoas que os lideram - está única e exclusivamente nesse fato.

Se quiserem protestar a favor do aborto, contra a violência doméstica, contra o assédio no trabalho, no transporte público, na balada, podem me chamar, sou o primeiro a cerrar fileiras. Agora, se o Congresso Nacional tem menos mulheres do que homens, se o salário de vocês é menor que o dos homens, sinto muito. Não é problema meu. E, confesso, não estou remotamente preocupado com isso.

As mulheres que eu aprendi a admirar não esperaram a benevolência de nenhum homem, de nenhum marido, de nenhum governo e de nenhuma lei. Tiveram força para chutar a porta e entrar. Simples assim.

Minha bisavó alemã chocou a comunidade conservadora de Lages, em Santa Catarina, ao defender ideias progressistas e cosmopolitas e ao tocar piano à noite, durante apresentações de cinema mudo. Uma de suas filhas, minha tia-avó Liselotte Ornellas, foi a primeira nutricionista brasileira, até hoje referência na área, e uma das primeiras mulheres do Brasil a seguir a carreira acadêmica. Continua lá, firme e forte, no Rio de Janeiro, com 98 anos. Umas das mulheres mais lindas do Brasil.

A neta da minha bisavó alemã, minha querida mãe, é uma mulher maravilhosa, forte, cheia de personalidade. Lutou bravamente contra a ditadura militar. Uma pessoa que me ensinou a a ser tolerante, ético, a ter valores antes de tudo. Meu pai dizia, ao se referir a ela: "Filho, sabe por que sou apaixonado pela sua mãe? Porque ela sempre foi a Maria, nunca foi a esposa do Roberto".

Essas mulheres balizaram a minha busca pessoal por uma mulher. Demorou muito, mas um dia eu achei. Achei uma mulher mais bonita do que eu, mais inteligente do que eu, mais bem sucedida profissionalmente do que eu, mais generosa do que eu. Detalhe: não nasceu em berço esplêndido, muito pelo contrário. (Perto do meu berço então, nem se fala...). Foi apenas mais uma a chutar a porta. Só me restou questionar por que raios ela me escolheu...

Quando leio as postagens nas redes sociais, tenho a impressão de que vivo no Afeganistão. Não quero negar o fato óbvio de que muitas mulheres brasileiras ainda vivem no Afeganistão. Só quero lembrar que muitos homens brasileiros, já faz tempo, não estão mais em busca de Amélias.

Minha patética opiniãozinha de rede social para o Dia Internacional da Mulher vai, portanto, para essa proposta: muito mais esforço direcionado aos casos de polícia. Muito menos atenção ao discursinho raso de esquerda. Esse (quase) ninguém aguenta mais. Já nos exauriu por diversos motivos. O feminismo "fail" é apenas mais um. E, diga-se de passagem, um dos menos relevantes e interessantes.