28.9.09

O mágico dos ratos

O menino enfim entendeu o que todos gritavam ao observar atentamente o movimento dos lábios da mãe. A cidade está infestada de ratos! Sentiu a vibração forte no chão e achou o irmão na sala, frenético com a vassoura, olhar desesperado, pancada atrás de pancada. Tentou ajudar, mas a boca do irmão mexia rápida, enérgica, e ele o empurrou apontando a porta da cozinha onde a mãe chorava de pé em cima da mesa. As panelas pareciam passear sozinhas no chão, ele seguia os movimentos e acumulava panelas nas mãos depois de arremessar os ratos longe. A mãe inutilmente tentava fazê-lo parar e pedir que subisse ali. Parou na porta de casa por alguns instantes. Nunca vira tanta gente correndo ao mesmo tempo, os braços pra cima, as bocas tão abertas. O movimento asqueroso dos bichos pela rua não o assustava, parecia um enorme desenho mágico.

Levou algum tempo para chegar à praça. A cidade está infestada de ratos! – agora já reconhecia a frase na boca das outras mulheres de olhos esbugalhados. O sino se movimentava rápido demais na torre da igreja e ele sabia que não era meio-dia. Ali viu pela primeira vez o rei de perto. Estava ao lado da guilhotina. A vasta barba do rei não o deixava entender nada, mas o olhar confiante dizia alguma coisa. Correu na direção em que o governante apontava sem parar. Avistou de longe o homem magro de chapéu engraçado com a vareta na boca. Em passos tranquilos, comandava o tapete de ratos.

E agora? – pensou. O que vai acontecer com os ratos? Quando os últimos da fila já sumiam no horizonte seu irmão apareceu com ar bravo, mas aliviado, dizendo coisas. Tomou-o pela mão com firmeza e seguiram de volta pra casa. No caminho as pessoas pulavam juntas ao mesmo tempo e rodavam, como nas festas de final de ano e nos dias de feira. A mãe juntava os restos da cozinha e sorriu ao vê-los chegar. Aos poucos foi voltando a velha tranquilidade e o menino sentou no chão cabisbaixo. Vamos à igreja! – disse a mãe ao irmão. Quem disse que a cidade está infestada de ratos? Vamos já agradecer. O menino seguiu atrás, devagar, logo depois.

O final de tarde estava agradável, acompanhado de um lindo pôr-do-sol. A mãe, como de costume, deixou que os filhos brincassem na escadaria da igreja. O irmão logo se integrou a uma roda de crianças. Aparentemente, uma delas mexia os lábios com força e outra saia correndo em volta tentando pegar. O menino se distraiu com a longa fila de formigas que levavam pedaços de folhas pra dentro de um buraco da escada. Com um pequeno galho, ajudou as pequenas em seu trabalho. Quando virou o olhar, minutos depois, todas as crianças haviam sumido. Só conseguiu ver lá longe o menino de muletas caminhando afoito na mesma direção em que seguiu o tapete de ratos. Ainda caminhou meio sem rumo pela pequena praça. Pensou em entrar e avisar a mãe, mas logo desistiu. Não era nada novo, apenas o irmão que foi brincar na mata e dele se esqueceu.

8.9.09

João-bobo no céu

O professor aconselhou evitar os primeiros vinte segundos, eu sei. Queria ter medo de altura, esperar o tal frio na barriga. Vou enfrentar meu ridículo, fingir com cara de sonsa a aflição de estar aqui em cima. Já ouço as palminhas e algum conselho ridículo para melhorar na próxima. Depois provavelmente vamos de novo, a mesma fila, na próxima semana pequena variação, o vestiário terrível. Quero ter agonia agora, no banho ela vem atrasada, as respostas das banalidades de meninas e o êxtase coletivo acabam com meu dia. Bem poderia ter a cabeça de ferro, pular de ponta bem reto, quebrar o fundo da piscina e sair apoteótica na garagem, rir dos carros todos inundando.

Alguns passos pra frente, para adiar a impaciência do público, podem ser úteis. Adoro esse vai e vem da ponta da táboa. Um João-bobo parece tanto comigo! Escancararia sorrisos sem a pintura por fora? Talvez com braços, pelo menos, se comunicasse melhor. Dois sinais de dedo médio dariam conta, fazer agora causaria uma comoção divertida. Uma pena, uma das poucas vontades maiores é passar batida, andar em paz no caminho pra casa. Meu quarto esta hora paira como eu gosto, os livros, papéis, coisas inúteis no chão, o computador ligado nas pessoas certas.

Falta pouco. Abro os braços, olhos bem fechados, curtindo as manchas brancas de luz aparecendo, sempre fazia quando era criança. Saio voando pelo quintal, nos braços do pai, cheiro a grama, enquanto vozes dispersas de mulheres lançam alguma reprimenda. Num sonho recente, misturei isso com uma festa colorida na piscina, eu já saia linda, de roupa nova, joias nunca vistas, pessoas legais em rodas dispersas, sem pressa, só conversando. Mais vozes, lá debaixo – vai logo! – depois algum xingamento incompreensível, misturado com outros. Saco... Acabo cansando e pulo. A queda triste e sem graça dos Joões fabricados em plástico de segunda categoria.